20091012

Um método

     Os fatos jogaram contra mim. Me vi subitamente sem escolha do que fazer, pra onde ir, o que escolher. Rodei em meu pensamentos, recolhendo-os por aí. De tudo o que havia ficado para trás. Do tanto que deixa-se pelo caminho porque pesa, pesa, pesa, pesa o corpo e a alma e coração. E das ganas de gritar para exprimir só ficou o lento mastigar dos pensamentos. Queria exprimir para não explodir. Mas não explodi afinal.
     Não soube dizer de quem foi a culpa. É fácil expiar a própria culpa e ignorar o outro lado. Tão fácil quanto supervalorizar os sentimentos alheios e mergulhar em culpa e tristeza. Talvez sejam extremos. Para mim, só servem para delimitar os limites razoáveis de ação. Passados os extremos, ainda me questiono se encontrei a razão.
     Quando eu a abordei e questionei a razão de tais atitudes por parte dela, recebi o olhar daquele que encontra conforto em culpar os outros por seus problemas. Não consegui reagir. Não posso conversar ou contra-argumentar com algo assim. Todos temos o nosso tempo para amadurecer e refletir. Era o meu tempo, não o dela. Não era justo. Me despedi e cada um saiu para seu lado.
     Alguns passos depois, parei e fiquei observando Camila se afastar. Ela caminhava sem muita pressa ou ambição, claramente imersa em seus pensamentos mais uma vez. Ela andava e em um dado momento, olhou para qualquer coisa que a fez quase se virar para mim, mas ela não me viu. E seguiu seu caminho. Vi que dentro de alguns passos Camila iria desaparecer em uma esquina, por trás de um grande muro. Nesse momento, nesse preciso momento, me virei e caminhei na direção oposta.
     Me questionei a razão daquela atitude, em seguida. Me questionava: a separação era inevitável. Por que você desviou o olhar antes do fim?
     E rapidamente encontrei a resposta. Quando eu desvio o olhar, eu mantenho a pessoa. Eu mantenho a minha segurança e meu senso de realidade. Eu sou o parâmetro, eu escolhi quando não veria mais a pessoa. Quando a pessoa se afasta e desaparece e isso está fora do meu controle, fico desamparado porque fiquei sujeito ao mundo, aquele instante, aquela imagem tão fugaz me foi retirada. Isso pode acontecer de maneira brusca, em casos de tragédias ou acidentes, mas ali, ali seria uma maneira tão gentil para isso, como já fora tantas vezes.
     Isso que eu percebi me fez sentir alguma contentação pessoal, uma espécie de alívio em perceber minhas limitações naquele momento. Um alívio porque me senti humano em meu sentimento, igualmente tão sincero quanto egoísta. Ainda assim, isso dificilmente se caracteriza um método.
     A distância é muito mais difícil quando suas memórias são levadas de você, na sua frente, sem pressa ou discussão. E acidentalmente, encontrei esse método de manter uma parte dela ali comigo.

     No entanto, concordo que há mais de um método por aí.

20090407

Uma tarde qualquer

      As marcas do reflexo da luz no teto formam desenhos abstratos da mais simples beleza. São marcas refletidas por carros e sombras de pedestres, que se projetam oscilantes através das pequenas frestas da janela em um dia ridiculamente quente. Os dedos de Camila brincam delicadamente com meus cabelos e sinto sua respiração suave refrescando meu rosto enquanto ela lê um livro, que segura com a outra mão. Olho para cima e vejo seus olhos castanhos compenetrados nas linhas de Javier Marías. Estico um braço e acaricio seu rosto e seus cabelos. Ela sorri e me lança um olhar quase tímido.
      Me viro de lado e me coloco em uma posição semi-fetal sobre suas coxas, encontrando uma área incrivelmente confortável ali. Poderia cochilar facilmente sobre ela.
      "O que você quer almoçar?", ouço sua voz.
      "Eu falei que faria o almoço hoje", respondo após uma pausa, murmurando de olhos fechados, quase dormindo. Houve algum silêncio.
      "Então... O que vamos almoçar, Gregor?" ela questionou, rompendo o silêncio com um sorriso irônico que não pude ver mas se fez ouvir. Fingi dormir.
      "Gregor?"
      Eu dormia.
      "E o meu almoço?" ela questiona enquanto coloca o livro ao seu lado.
      "Ssshhh..." respondo com preguiça.
      Ela então apertou meu nariz, bloqueando minha respiração e o puxou com alguma determinação. Dei de ombros. Ela então desistiu de meu nariz, acendeu um cigarro e voltou para o seu livro. Espiei pelo canto do olho e Camila estava realmente lendo mais uma vez.
      "Ei", falei me levantando e sentando ao seu lado "não era pra você desistir assim de mim!"
      "Se eu soubesse que almoçaria um Marlboro vermelho teria comprado pelo menos umas maçãs pra acompanhar" ela respondeu sem mover os olhos.
      Comecei a rir. "Que tal umas abobrinhas recheadas?"
      "Abobrinhas? Não tem uma bisteca de porco bem suculenta?"
      "Bisteca eu acho que não... Tinha bacon mas ele fugiu com o Babe, o porquinho atrapalhado, semana passada", comentei.
      Ela desviou a atenção do livro e me olhou com cinismo, refletindo o meu próprio pós-piada-do-Babe.
      "Sério mesmo, foi um negócio emocionante!" falei com a expressão mais séria e verdadeira do mundo. E finalizei "Mas deixaram as abobrinhas para trás. Por isso ofereci."
      "As abobrinhas estão ótimas pra mim", ela respondeu.
      Levantei e antes de sair do quarto, já na porta, parei e me voltei para Camila.
      "Você as quer de alguma maneira especial, Cá?"
      Com os olhos baixos no livro, ela me repondeu.
      "Mal passadas, por favor." esboçando um sorriso.
      "Sangrando!", respondi energeticamente.

20090406

Cristina

      Cristina é uma mulher inteligentíssima, criativa e divertida. Seu rosto não é delicado ou lindo e tem um corpo mais cheio que os padrões impõem atualmente, mas seus atributos não físicos são suficientemente desejáveis a ponto de homens que se deixassem conhecê-la diriam que Cristina é uma mulher bonita. Parte disso é o seu sorriso espontâneo e sincero que no mínimo atrai curiosos para saber o que mais há por trás dessa mulher de aparência um pouco desleixada e olhos tão brilhantes.
      Ela já teve alguns namorados e sai com este rapaz de porte médio e ideias idem. O tipo de cara que ela sai porque não suporta a ideia de estar sozinha, ainda que tantas pessoas estejam ao seu redor e uma parte delas tenha afeição por Cristina. Ela não suporta estar sozinha.
      Sua carência é tamanha e infundada que Cristina dorme com muitos homens que exprimem qualquer simpatia por ela. Ela não o faz por um real desejo por todos aqueles homens, mas apenas porque Cristina não pode ficar sozinha com si em momento algum e como uma espécie de gratidão por aquela faísca de atenção, Cristina lança-se sobre estes homens com intensidade e tristeza, gozando um afeto vazio e esperançoso, falhando miseravelmente na tentativa de suprir o que parecem necessidades cotidianas mas são simplesmente atos falhos na busca do amor próprio.
      Ela não vai encontrar jamais o seu amor próprio em fodas esporádicas com homens que sorriem em sua direção porque tal carência é destrutiva e Cristina tem tanto controle em sua inteligência racional que não é impossível ficar perplexo com a fragilidade de sua inteligência emocional. É questionável falar em uma inteligência emocional já que a razão jamais encontrará formas de exprimir a emoção com propriedade e justiça mas declaro assim por algum comodismo.
      Outra noite, encontrei Cristina em um bar e ela me recebeu sorrindo e carinhosa como sempre. Ela estava com alguns amigos e todos bebiam seus copos de cerveja enquanto conversavam animadamente. Me uni ao grupo e invariavelmente conversava mais diretamente com Cristina. Notei que após algum tempo, ela se oferecia para mim sem pudores e assim sendo, me mantive neutro às suas investidas pois não sentia igual atração por ela, simplesmente não me interessava e acredito que de alguma forma Cristina percebeu pois senti alguma irritação em seu olhar.
      Ainda assim, de repente Cristina me beijou e após o beijo, me afastei um pouco dela e falei olhando em seus olhos um pouco embriagados.
      "Acho que você confundiu um pouco as coisas, Cristina."
      "Oh, Roberto..." ela parou por um instante e continuou, "desculpe... não queria deixá-lo constrangido nem nada, só achei que você também estivesse a fim..."
      "Não precisa pedir desculpas, você agiu como achava ser correto, não há nada de errado nisso."
      Ela sorriu e voltou para os assuntos na mesa, de uma certa maneira me evitando. Não podia fazer nada já que isso é algo dela, somente, e senti que qualquer tentativa de retomar uma conversa com Cristina para deixar claro que pouco daquilo me importou seria mal interpretado novamente.
      Isso ficou mais claro pra mim quando Cristina passou a investir em outro amigo que dançou uma música com ela logo após nosso beijo e subitamente ele tornara-se seu foco. Sabia que ele não era o cara pra ela e provavelmente ela também. Ele já não estava tão sóbrio e não estava exatamente interessado nela, mas ela investia no rapaz com um interesse pessoal e inconsciente. Minutos depois, ela o beijou e não foram muitos minutos até que eles transaram no banheiro do bar.
      Cristina voltou a mesa com ele; o rapaz ainda era carinhoso com ela na medida do alcoolismo, mas ela não podia perceber aquele ato de afeto de uma outra pessoa. Cristina apenas conseguira novamente perceber o vazio daquilo tudo. Nesses momentos sempre me preocupo com Cristina porque sua desolação é tal que muitas vezes acredito que ela pode procurar o alívio com um tiro na própria cabeça. Seria uma ação tão extrema e estúpida, mas me entristece perceber que isso é tão plausível e cabível em suas ações que prefiro pensar que Cristina encontrará todo aquele amor que ela tem em si e perceberá como é auto-suficiente de tantas maneiras e, assim, ela poderá encontrar alguém para se entregar de verdade, não por gratidão ou por falta de correspondência pessoal, que tudo aquilo não passa de um somente si.
      E Cristina não mais lutará contra seus próprios fantasmas porque ela perceberá que é humana e tudo bem. E de todas as condições nojentas e tristes e possíveis, essa é a única verdadeiramente impossível de se alterar, e que isso a obrigaria a viver em mutação, com variações de humor e pontos de vista, entre a segurança e a insegurança de si e de seus atos, com alegrias reais e tristezas inexplicáveis, com otimismo e desespero, com realidades internas, com o inconcreto da vida, com a falta de chão, os frios na barriga, a impureza do ar, o brilho opaco das estrelas, os olhares indiferentes, rir até chorar, com contas a pagar, variações climáticas e com todas, todas as outras pessoas na mesma condição miserável de seres humanos, por todos os dias, até o fim da sua vida.

20090216

Vídeo: "Katie's Tea", Camille


"Katie's Tea" Experimental Video from Demétrius Daffara on Vimeo.

Eu e Diego produzimos este vídeo com a ajuda de nossa amiga Annelise.

A história da idéia é mais ou menos a seguinte: eu e Diego já produzimos experimentações com light art há algum tempo, mas até então toda incursão era feita com fotografias de longa exposição. Um dia no ano passado produzíamos algumas dessas fotografias utilizando o reflexo da luz em uma lente de uma outra câmera, que causava um efeito bonito e colorido, ainda que os pontos de luz que tínhamos em mãos fossem monocromáticos. Algumas fotografias depois, veio a idéia de fazer um vídeo e fizemos um meio que aleatoriamente. Assistindo ao vídeo, que já teve um efeito muito legal, colocamos para tocar uma música qualquer que eu tinha no celular. Em muitos momentos o vídeo sincronizava com a música e era uma coisa sensacional. Em seguida, decidimos por uma música, "Katie's Tea" da Camille, e gravamos um novo vídeo.

Não houve ensaio nem nada. Colocamos para tocar alguns instantes do final da música anterior (uma de Beethoven) e quando a música começou, deixamos a coisa tomar forma por si só.

O resultado é o vídeo acima. Houve até uma interferência durante a gravação, quando um SMS chegou em meu celular e interrompeu a música por dois segundos. Mas o vídeo está integral, com uma única alteração: sincronizei o áudio da música com maior qualidade sobrepondo o áudio que utilizamos como guia no dia da gravação.

Espero que gostem.

20090131

Algo bonitinho



Encontrei no http://pafurada.tumblr.com

20090126

Paisagem

      Ainda não entendo o que está acontecendo. A noite não foi como são as noites. Não acordei como acordo. Não sou eu e nunca estive tão confortável comigo mesmo. A luz do dia não é a mesma. As pessoas não são as pessoas que estão por aí.
      Uma forte sensação de não pertencer, não estar, não compreender. E uma alegria inexplicável que cerca isto. Ou começa nisto. É impossível compreender o que está acontecendo e respiro e repito para mim o que poderia ser real. Mas sei que não é.
      Hoje, a luz do dia está inexplicavelmente peculiar. É como um crepúsculo, um constante crepúsculo. Não é dia nem noite. E já pensei em todas as possibilidades. Não estou sonhando, por exemplo. Já conferi umas duas vezes se estou respirando, se sinto minha pulsação. Está tudo ali.
      Os sons são estranhos e familiares, parece tudo novo, novamente. Os sabores e sensações também. Com a língua, faço alguma pressão sobre meus dentes. Eles não parecem tão fixos e imutáveis como ontem mesmo poderia jurar que são. Parecem ceder levemente, como dentes de leite em transição para os permanentes. E tantos anos após meus dentes de leite já terem ido embora, me pergunto se estes agora são realmente permanentes.
      A leveza de pensamentos e movimentos não se trata de um enfraquecimento, pelo contrário. Ultimamente buscava me desprender de todas as minhas armaduras e esconderijos de conveniência e de repente, mal consigo percebê-los. E como esperado, não trata-se de uma vulnerização mas de uma ação de fortalecimento. Fortalecer o que importa e expor isto porque é isto que sou e nisto que acredito. Estou tão consciente disso que sinto a beleza de cada átomo de mim e a beleza de cada átomo do mundo e a beleza de cada um destes átomos, meus e do mundo, estarem intimamente ligados, indissociáveis e indistinguíveis. São todas as coisas e uma só. Todos nós.
      E por este breve momento sinto uma profunda gratidão por estar aqui e poder perceber isto. Não sei o quanto isto dura. Se dura. O que me resta é agradecer.


A quem interessar, obrigado.

20090115

Mídias Digitais + Cinema Digital

Passei no vestibular e já estou matriculado! Este ano e por mais alguns estudarei Cinema.

Uma pessoa com formação em Mídias Digitais e que se formará também em Cinema Digital, o que é que dá? Não sei, ainda. Em quatro anos talvez eu tenha uma resposta. No momento, vou estudar Cinema. Cinema!

Só queria compartilhar isso com vocês.


Grato,

20090111

S.O.S. telefônico ou o outro lado da vida

(nota de introdução: hoje eu prestei vestibular, de novo. Conclui o meu curso no ano passado, hoje prestei Cinema Digital. Não fui brilhante na prova nem nada, mas a redação ficou até boa. Era uma tira do Laerte publicada em agosto passado. Era necessário fazer uma dissertação, uma narração ou uma carta. Escolhi narração e as condições eram: eu era o cara do último quadro e meu nome era Armando. E eu tinha que narrar aquilo tudo, quem era o personagem do primeiro quadro, etc. Fiz o texto e como pude trazer o rascunho, decidi publicá-lo aqui. Caso eu encontre a tira do Laerte, a deixarei aqui para referência, mas no momento, só posso mostrar o texto. Ainda que eu não adore textos que são feitos obrigatoriamente e o tenha escrito em 45 minutos, acho um tanto interessante. Boa leitura.)


      Estou sentado em minha sala junto ao telefone. Fim. Este é meu emprego, minha vida, em linhas gerais. Não há muito além disso, mas não estou realmente incomodado com esta situação, ao contrário de minha esposa que repetidas vezes me disse "Armando, querido, sua vida é chata. Seu emprego é chato." Bobagem, eu a disse. Faço o que faço e faço muito bem. Sou responsável por atender ligações e transcrevê-las. De maneira geral, não me é permitido interferir nas ligações porque não me é permitido, por contrato, interferir na vida. O mínimo de presença me garante o máximo de veracidade na transcrição da vida. Se me perguntam o que faço, então, é isso: narração antropológica, do homem, do mundo, da vida. Através de um telefone, claro.
      Acho um emprego justo, não tenho reclamações. A remuneração é adequada e o risco de acidentes é nulo. Já caí da cadeira alguma vezes sem nenhuma consequência maior. Certa vez, eu estava aqui sentado e... um momento, o telefone toca; levo o monofone à orelha, caneta em punho.Um voz desesperada me pede repetidas e infinitas vezes "Socorro! Socorro! Socorro!". Deve ser algum coitado ligando de algum orelhão. Pela sua voz, posso afirmar com bastante convicção de que ele está em uma situação de fuga, provavelmente há um homem armado à sua espreita, o coitado sabe que não tem chance e recorreu ao telefone público mais próximo em uma tentativa desesperada e, se me permite, pouco sábia de conseguir algum amparo. Seus olhos miúdos em pânico devem contrastar com sua bocarra escancarada emitindo seu suplício. Típico.
      O homem continua seu apelo e, ainda que eu não seja pago para fazer esse tipo de narração sobre as pessoas, eu o faço porque considero isso um bônus. Os gritos tornam-se mais aflitos e intensos, "socorrossocorrossocorro!", quase indecifráveis. Deve terminar logo. Um último "socorro" é interrompido por um forte estouro, seguido por um ruído e um baque. Ouço passos se aproximando. O telefone é desligado. Termino com um breve "22 de agosto de 2008. 18 horas e 33 minutos".
      Através das linhas telefônicas e dos postes é possível fazer tal amostragem da vida que gosto de pensar que sou um Darwin contemporâneo, registrando não a evolução mas a estagnação da espécie. Aliás, onde eu estava? Ah sim! Certa vez, eu estava aqui sentado e subitamente... um momento, o telefone toca; levo o monofone à orelha, caneta em punho. Penso "será que não vão me deixar terminar minha história?!"
      A voz fala com desespero. Transcrevo suas palavras sem interferir, etc., etc.

20090106

Alegria

      Isadora entrou no apartamento de Roberto em um passo diferente do habitual. Estava mais leve e honesta, livre de si. Roberto não estava e ela sabia disso, a rotina depois de seis anos de namoro é um mapa de horários e lugares que nunca incomodou a nenhum dos dois. E Isadora nesse momento estava explodindo de amor, como quem abre uma caixa e descobre o segredo da vida. Ela foi ao apartamento de Roberto para se despedir dele, uma boa despedida. Uma despedida que não causasse tristeza mas uma despedida que fosse possível de construir algo, não a despedida destrutiva que as pessoas abraçam ao primeiro aceno.
      Ela não sabia se Roberto entenderia aquilo, naquele momento. Ela não tinha como saber, mas sabia que certamente um dia ele compreenderia, afinal ele foi fundamental para que ela estivesse desta maneira e que fosse a pessoa que é.
      Então Isadora rasgou algumas fotos, queimou cartas, jogou pela janela presentes e lembranças. Rabiscou papéis e com as pernas fracas de satisfação, minutos depois, Isadora deixou o apartamento.

      No meio dos papéis rabiscados, apenas um era legível. Ele dizia:


HOJE
AMANHÃ
ONTEM






      Isadora foi embora e Roberto não a viu novamente.

20081202

Para um gato de rua

   Caminhando de volta para casa, percebi um gato parado junto a um degrau da calçada alguns metros à frente, na minha direção. Em seguida o gato se abaixou atrás do degrau e me olhou rapidamente, curioso se agora eu podia vê-lo, como em um desenho animado, onde uma pessoa muito grande esconde-se atrás de uma árvore ridiculamente pequena. Achei aquela atitude tão espirituosa que desviei o meu trajeto e me mantive falsamente indiferente, não olhei para o gato. Passei por ele e com satisfação notei pelo canto do olho que ele continuava me olhando, invisível e vitorioso.
   Sem olhar para trás, segui em frente e dois minutos depois eu cheguei em casa. Abri a porta e tirei meus sapatos. Ainda me sentia envolvido pela inocência daquela ação, talvez um reflexo da inocência que ainda tenho em mim. Ou da que anseio ter. Não sei. Sentado na cama, rapidamente me lancei e olhei embaixo da cama.
   O gato não estava ali.




   Este texto é para ele.

20081116

Difícil

Eu sou tão difícil que, na sexta-feira à noite, conclui que estava tão chato que não podia nem mais me suportar. Por algum tempo percebi que tinha cansado de tudo. De mim e dos outros. Tinha comentado com um amigo alguns dias antes duas frases da Franny, no livro "Franny & Zooey", do Salinger, que dizem:

"I'm sick of ego, ego, ego, ego. My own and everybody else's. (...) I'm sick of not having the courage to be an absolute nobody.”

Até onde vai o desprendimento? Até onde devemos nos desapegar? É fácil se desapegar das coisas materiais quando você não vive por elas. Não sei bem, mas isso me ficou muito claro quando me assaltaram, levaram meu celular e eu sentia apenas uma espécie de compaixão pelo cara que me assaltou. Não conseguia entender bem a razão disso, gostava do meu celular e ele me era muito útil, mas não era minha vida. Antes me preocupava em ficar atento para não me apegar a esse tipo de coisa, viver em razão de coisas temporais e tão frágeis. Hoje em dia não consigo ver as coisas de outra maneira. É natural e orgânico, não como algo que "aprendi" a fazer mas como algo que me era tão rotineiro fazer e que simplesmente "desaprendi" a fazer. Estou longe de ser perfeito nisso, mas aprendi a encontrar uma voz que tem muito mais força em mim do que qualquer bem material poderia proporcionar.

Então, não entendo bem de onde vem essas inquietações súbitas. Acredito que elas sejam muito proveitosas. Mas ñao sei apontar as suas razões depronto: é um processo. Sou temperamental e difícil e acredito realmente que nada é constante, a não ser a mutação. Eu mesmo, fazendo uma espécie de retrospectiva dos últimos doze meses vejo o quanto mudei. Hoje não me digo mais católico, mas me sinto espiritualmente muito mais forte e em crescimento; sou vegetariano por razões espirituais, políticas, morais e ambientais, e me sinto muito mais fiel a mim mesmo assim; me alimento melhor, gosto mais das pessoas, vivo muito mais aberto e sensível às mudanças;

São tantas mudanças, maiores e perceptíveis ou menores e invisíveis às outras pessoas que não consigo falar sobre elas de uma única vez, já que assim como trato situações negativas de forma abstrata pois a partir do momento que as encaro como "problemas" e concretizo isso em mim, elas passarão a efetivamente sê-lo, também trato as situações positivas e enriquecedoras. E nesse mesmo paralelo, em ambos os casos não guardo memórias concretas do que foi resolvido ou expandido. Simplesmente absorvo e quando olho para onde isso deveria estar, só vejo a mim mesmo, uma parte de mim. Como se sempre estivesse lá, integrado a mim, natural.

E quando não faz mais parte, cresce, funde-se, muda, move-se, desprende ou apreende. Está lá para em breve não mais estar. Nunca é, mas quando está, movimenta o meu ser com toda força, sem grandes estardalhaços.



O ego tem seu lado negativo e positivo. A parte negativa sempre vemos por aí. Mas usar a parte positiva é muito mais importante e difícil. Outra frase do Salinger fala bem disso: "An artist's only concern is to shoot for some kind of perfection, and on his own terms, not anyone else's." A destruição pode ser uma forma de criação, mas isso sempre dentro de si. A destruição de outros e de outras criações e significações apenas pelo próprio ego não tem nenhum valor real, além de alimentar a parte negativa do ego. Manter o foco em sua arte e em si, e fazer o melhor que você pode, é uma maneira positiva de usar o ego em sua forma positiva porque você provavelmente direcionará isso aos outros. E os outros serão atingidos por isso de uma maneira igualmente positiva.

Em qualquer nível, o exemplo é a melhor forma de educação. "faça o que eu digo, não faça o que eu faço" é o tipo de argumento que me faz querer vomitar. É fácil dizer sobre qualquer coisa. Viver essa coisa é muito mais valioso e raro. E então, nada precisará ser dito porque tudo já está feito.

Por isso fico tão feliz com essas mudanças que me fazem ser uma pessoa tão difícil. E não luto contra isso, não disse que seria fácil. Sou um livro aberto e se pareço difícil de ler, às vezes, talvez eu esteja apenas procurando novas significações ou traduções para mim.

20081114

Trajeto

      Todos os dias eu tomo o ônibus e sigo nessa rotina que me desagrada um tanto. De uma forma geral, detesto ônibus. Seu barulho, a falta de estabilidade, a demora para completar um trajeto e a imprevisibilidade de horários. E me incomodam também as pessoas. Geralmente rudes e indiferentes aos outros e a si mesmas, provavelmente.
      Outro dia vi um homem, de cabelos um tanto bagunçados, camiseta pólo um amarrotada e uma expressão compenetrada. Ele escrevia em uns papéis pequenos, como uma folha de sulfite comum cortada em quatro. Ele tinha uma porção delas. Escrevia algumas coisas, preenchia a folha e, em seguida, colocava essa folha escrita no final da fila para continuar escrevendo na folha branca que era revelada.
      É bonito ver alguém escrevendo com tanta concentração, em lugar tão improvável. O barulho, o balanço, o empurra-empurra. Me aproximei do lugar onde ele estava sentado e tentei ler o que ele escrevia. Não consegui ler muito bem, naquele dia, apenas identifiquei se tratar de algumas frases soltas, pensamentos próprios. Notei que alguns falavam de Deus ou de iluminação. Outros de sentimentos bastante louváveis e surpreendentemente muito puros e inocentes para um homem que aparentemente já tem seus quarenta e tantos anos. Gostaria de ter lido alguma coisa por completo, mas infelizmente não conseguia ter nada maior que algumas palavras soltas que ora faziam um tremendo sentido para algum contexto que eu imaginei se tratar, ora absolutamente nenhum.
      Por maior que tenha sido a minha curiosidade, fiquei simplesmente feliz de ter presenciado aquilo, no momento me bastou. Me foi suficiente perceber entre tantas pessoas um homem alheio aquilo tudo, redigindo seus pensamentos e idéias com afinco, folha a folha, por todo o trajeto. Associei esse comportamento a uma espécie de mantra. Não sei se é justa a comparação, parece justa pra mim. Um mantra pessoal, uma oração igualmente poderosa e real, espontânea e de profundo valor espiritual. Uma busca de si através do raciocínio lógico impulsionado pelo coração. Me senti muito grato por ter presenciado isso.
      Dias depois, vi o mesmo homem com o mesmo comportamento. Dessa vez não pude me aproximar de seu banco, permaneci de pé e distante e ainda assim fiquei profundamente feliz de ver aquele homem de expressão séria em busca de si às sete horas da manhã, em seu mantra. Suas palavras me eram invisíveis mas não podia deixar de me sentir feliz por elas estarem ali, em esferográfica preta, linha após linha.
      Hoje pela manhã, ao subir no ônibus vi esse homem novamente. Ele escrevia e nada mudou. A cor da camiseta era outra, mas o modelo era o mesmo. Consegui me posicionar bem ao lado de seu banco e tentava ler alguma coisa que escrevia. Ele é muito rápido, uma coisa meio fascinante.
      Aliás, fascinante foi perceber ter encontrado alguém tão valioso ali, em meio a tanta gente que geralmente me irrita. No mesmo espaço, sob as mesmas condições e sob o mesmo disfarce: pessoas.
      É por esse tipo de coisa que não consigo ver um paraíso e um inferno como as pessoas colocam, o paraíso lá no alto, o inferno lá embaixo. Pra mim é cada vez mais claro que eles estão muito próximos e interligados, presentes em todos os lugares que se vá, por pior, ou melhor, que pareça a situação.
      Hoje o homem ainda escrevia compulsivamente, como se fosse lógico que o fizesse ali, naquele momento sob aquelas condições. Rapidamente preenchia uma folha e em seguida já passava para a próxima, ocultando aquelas linhas dos olhos estranhos e de si mesmo.
      De todas, consegui ler apenas uma, instantes antes dele precisar se levantar para descer do ônibus. Ela dizia:

Seja quem for que amamos, nele encontraremos nossa alma em sua maior expressão.


      E então, ele guardou seus papéis no bolso da camiseta, se levantou e desceu do ônibus. Para mim, pareceu o suficiente.

20081102

Ensaio sobre a narcolepsia

Tenho uma nova doença: a narcolepsia. É mais uma coisa que foi desencadeada pelo meu TCC, entre todas as coisas, boas e ruins e terríveis que hoje em dia fazem parte do meu cotidiano.

Exemplo 1: sexta-feira cheguei em casa exausto. Eu precisava editar um vídeo para sábado de manhã. Eu sentei no computador para editar o vídeo. Resolvi enviar um SMS para um amigo. Aí eu cochilei. Acordei minutos depois, sem entender o que tinha acontecido, segurando o celular, sentado na frente do computador com todos programas abertos e etc.

Exemplo 2: ontem, voltando de um dia cheio, mas muito produtivo, estava sentado no ônibus, com um cara do meu grupo, discutindo os próximos passos, o que tinha sido bom daquele dia e o que não deveria acontecer de novo. De repente, cochilei. Acordei instantes depois, após sonhos psicodélicos e uma canção do Stereo Total que no sonho aumentava de volume e ritmo gradativamente. Não sei se meu amigo percebeu. Eu percebi. E cochilei mais duas vezes, pelo menos, no caminho até em casa. Tão inesperados e repentinos quanto o primeiro cochilo.

Junto do meu alzheimer, minha surdez, meu mau humor e minha acidez, a narcolepsia abraça a paranóia e todos cantam um belo Soneto à Hipocondria.