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20080817

Acerto

      O processo criativo de uma pessoa é profundamente intrincado e indescritível. O meu processo criativo é, não sei dos outros. Não sei como qualquer outra pessoa lida com isso, mas pessoalmente, o meu não é mais do que lógico e ilógico. É meu. Não quero soar como um artista de qualquer tipo, alguém que se vangloria das criações como se fosse um carro novo. Pra mim, é simplesmente natural. Não sei fazer nada quando não consigo acreditar nos motivos que me são apresentados. Ou consigo, e tudo bem. Mas preciso compreender esses motivos ou vou parar na primeira curva. Questiono os motivos que me parecem certos com a mesma intensidade que questiono os que parecem errados. E fujo desse maniqueísmo porque não há o certo mas o acerto. Um perceber fugaz. É meio pretensioso procurar uma relação entre as etapas do projeto, mas percebo que só consigo levar algo adiante quando as minhas frentes estão satisfeitas: imaginação, raciocínio e coração.

Imaginação, raciocínio e coração.

      Talvez seja disto que a minha alma seja feita. Talvez seja disto que as almas sejam feitas. Como suprir e fazê-las trabalharem tão honestamente para que a alma sinta-se verdadeira é a obrigação de cada um. Seja pelas formas e meios que sejam necessários para que haja esse estímulo.

      As pessoas por aí não têm muitos estímulos, há uma definição diminuta de valores e conceitos. Esvaziam-se almas. Esvaire-se a imaginação, o raciocínio e o coração. E não há nada que eu possa fazer sobre isso.



      Cada um só é responsável pela sua própria alma.

20080613

Sexta-feira, 13

Hoje é sexta-feira, 13. Sexta-feira-treze.



bah,

que se foda, o The Hives vem pro Brasil.
!

20080524

Godfathering

Agora à tarde vou ali fazer um Curso para ser padrinho de batismo. O batizado é na semana que vem e, ainda que eu considere profundamente lisonjeiro ser chamado para ser padrinho de alguém, acho um absurdo porque tecnicamente um padrinho é um substituto para os pais, no caso da ausência deles. E de acordo com a Wikipédia, "tem como obrigação auxiliar os pais da criança, na educação religiosa da mesma, no crisma".

Pretendo auxiliar a garota sob os meus preceitos que não necessariamente são cristãos. São fragmentos de tantas crenças, opiniões e subjetividades em geral que questiono uma aplicação para outro alguém a não ser eu mesmo. São válidas apenas para mim e só as responsabilizo em mim porque elas são igualmente mutáveis e eu sei a origem da mudança de um aspecto ou da sedimentação de outro. Assim como saberei da mudança dessa sedimentação, quando achar que assim deverá acontecer e da flutuação de tantas outras possibilidades e fatos que, certos ou não, manterei os pés fora do chão para poder me decidir. No fundo, não é fora do chão. É no chão formado por essa sedimentação, absolutamente temporária. Não é real ou concreto. Parecerá inconstante e desconfortável e muitas vezes, realmente é e será. E assim sendo, eu mudarei, todas as vezes, fixo apenas nas minhas convicções absolutamente pessoais e egoístas, que paradoxalmente atribui um valor incalculável às outras pessoas, sob as menores distinções que eu consiga atribuir.

Talvez mais do que um aspecto de educação religiosa (que sendo tão profundamente pessoal e honestamente, prefiro não induzir a absolutamente nada, oferecerei o que considero importante, apenas se achar necessário), acredito mais uma espécie de educação moral, por pior que soe a palavra moral. Atualmente, afirmo que os meus aspectos morais são fundamentados num processo de consciência e tão somente isso. A consciência de si. A consciência de seus atos. Um questionamento dos atos. Um questionamento de si.

Essencialmente, é isso. É muito mais, muito maior. Mas a essência, está aí. E é justamente isso que tenho para oferecer, agora. Ou tentarei fazê-lo, não sei. A garota tem apenas três meses, parece-me absurdo me preocupar com algo assim quando ela é tão nova, mais absurdo até do que ser chamado para ser padrinho de batismo. Mas aceitei a função, apesar do absurdo. Então, apesar dos absurdos, vou. Ali.

20080212

RESENHA: "O Segredo de Brokeback Mountain"

(Nota: Essa resenha foi redigida e entregue no dia 23/02/2006 para a disciplina de História da Arte, no primeiro semestre do curso de Mídias Digitais da Universidade Metodista de São Paulo. Como estou no meu antigo computador pelo menos até que o Principito esteja de volta pra casa. Encontrei esse texto entre os arquivos que só tenho nessa máquina. Boa leitura!)

   O Segredo de Brokeback Mountain é o (já) lendário filme dos caubóis gays. Polêmicas, desconforto, uma reação tão previsível quanto impressionante. Uma amiga minha que me acompanhou no cinema se contorcia durante a sessão nos momentos mais hardcore do filme (Por mais softcore que seja, apesar de não ser um pornô. Lógico) e sei que ela tem amigos homossexuais. Porém, ela sente-se desconfortável e visivelmente incomodada com a relação entre dois homens. “Imagina aquilo entrando”, disse. Particularmente, tais cenas não me incomodam. São demonstrações de sexo, como qualquer outra, heterossexual, homossexual entre mulheres, etc. Não tão etc, claro. Zoofilia, necrofilia e toda essa pansexualidade no sentido amplo de que tudo é sexo (Ou “fornicável”) me incomoda um bocado.
   Porém, o filme apresenta essa relação entre os dois homens de uma maneira muito tranqüila. Poética, até. No entanto, o excesso de melodrama acaba anestesiando demais alguns temas queridos ao filme, em minha opinião, permitindo ao espectador comum apenas a visão do romance entre os dois homens. Algo semelhante no dramalhão Titanic, que faz uso de ótimas tecnologias e um romance — também — “impossível” mas parece banalizar toda a tragédia em si. O que dá uma certa vantagem à Brokeback Mountain por não situar o filme dentro de nenhum acontecimento histórico assim tão relevante.
   Situando o filme, inicialmente, em 1963, Ang Lee usa de uma montagem “lenta”, valorizando muito a montanha do título e depois, com a tensão crescente do filme, as cenas tornam-se mais curtas, gradativamente, o que sim, é uma fórmula. Contudo, entendo o valor dessas imagens como foram apresentadas. O início valoriza a condição dos homens rústicos em contato com a natureza. Sendo esses homens tão rústicos, tais quais os rústicos caubóis do século XIX e, em função da natureza bucólica destes — independente do século em que se encontram — montagens paralelas constantes, cortes da geração MTV e a valorização do plástico não têm razão aqui e para tanto, o filme tem uma carreira de premiações e elogios de, em sua maioria, críticos e pessoas mais velhas, mas arrisca-se em desagradar a mesma geração dos cortes rápidos e videoclipes modernos, uma valorização da velocidade da edição sobre o conteúdo, o que é uma pena. Há uma vivacidade tão grande em contraste à essa aparente monotonia que os personagens não poderiam viver num mundo mais real.    Posteriormente, o filme projeta-se focando menos na natureza e mais nos personagens, não coincidentemente quando a ligação entre Ennis e Jack torna-se mais forte. O que é, até um certo ponto, cliché em termos de imagem cinematográfica para dar uma visão mais intimista dos personagens para o espectador, mas utilizando-se ainda de uma leveza na câmera pouco ordinária, sendo completada pela fotografia eficiente e pouco chamativa (por isso mesmo genial, já que adequou-se tão bem ao filme em si) e as ótimas atuações de todas personagens, fossem principais ou coadjuvantes.
   O período do filme também “coincide” com o período da revolução musical e sexual. Andy Warhol com sua Factory, nos anos 60 gerenciava o Velvet Underground e em oposição ao que é apresentado na película, uma valorização máxima ao plástico. Em 1963, os Beatles colocava Please Please Me em primeiro lugar nas paradas britânicas, onde essa “revolução” musical mostrou-se pioneira e depois copiado pela América. Na América do Norte, a música country e folk, no começo dos 60 era o grande evento, assim como Elvis e toda a Motown em si. E essa música country como a de Johnny Cash (Que, vale o trocadilho, como disse Bono Vox “Todo homem é um maricas se comparado a Johnny Cash”) é apresentada no filme porque ela era (e ainda é, imagino) popular no interior do país. O plástico adorado por Andy Warhol, assumidamente homossexual, e seus seguidores, como Lou Reed, que como o próprio diz no livro Mate-me, Por favor, de Legs McNeil e Gillian McCain, “Sou um chupador de pau, meu bem” exibe uma naturalidade na aceitação pessoal com o assunto (Apesar de não ser tão amplamente aceita pela sociedade em geral) que é típica de uma cidade grande, como a Nova York de Warhol e Reed. No filme, há uma dificuldade de aceitação à própria sexualidade. Na negação, no tradicionalismo — fato representado pelos personagens casarem-se e terem filhos, como qualquer homem heterossexual faria — e mesmo na violenta reação da sociedade que exclui e/ou assassina uma pessoa por ignorância (Talvez uma herança da igreja e suas leis incoerentes). De qualquer forma, o filme rústico assemelha-se à homossexualidade mais livre, retratada nesse trecho do livro, mas vai além. No livro, Billy Name complementa o comentário de Reed dizendo “Então Lou Reed sentava na minha cara enquanto eu me masturbava. Era como fumar casca de milho atrás do celeiro, coisa de garotos. Não havia paixão ou romance envolvidos. Era só uma questão de aliviar as bolas naquele momento, porque sair com garotas ainda tinha a ver com ficar envolvido e toda aquela merda. Com caras era mais fácil”. No filme, o “aliviar as bolas naquele momento” transformou-se em paixão. Os homens apaixonam-se.
   Em 1962, John Ford lançou O Homem que Matou o Facínora. Como em outros filmes do gênero, homens enfrentam, com pioneirismo, o oeste “selvagem” e, geralmente, dominando-o. Tal qual esse pioneirismo rústico retratado nesses filmes, o filme de Lee exibe uma espécie de pioneirismo sexual. Tanto na (quase) inovação cinematográfica, que de certa forma bloqueia a homossexualidade entre homens quanto entre tais personagens. Eles não enfrentam índios e suas terras desconhecidas, não têm bandidos canastrões ou donzelas em perigo. O desconhecido aqui era o limite de seus desejos. O limite sexual em si. E assim sendo, o filme exibe tal pioneirismo com êxito e, por essa ótica podemos afirmar que é um filme de caubóis, como os outros. A mudança (ou atualização) temporal é parte chave para o desenrolar do tema.
   Ennis também é um caubói, como os outros. Porém, sem os temas típicos de um faroeste, ele é algo passado. E com medo de ser esquecido. Semelhante ao medo de Holden Caulfied em O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, frente à iniciação da vida adulta e o desapego da inocência, sozinho e perseguindo fantasmas de um passado infantil e feliz, Ennis vê-se nas sombras de uma vida que sequer viveu e agora encontra-se apaixonado por alguém do mesmo sexo, distante de seus familiares e amigos, perseguindo os fantasmas do amor por Jack. Para isso, teria de lidar e transpor o próprio preconceito, moralidade e medo da violência, que presenciou quando garoto, e trazer esse amor para o “mundo real”. Apesar de ter deixado a família e amigos, sua crise interna o permite assumir o romance enquanto na Montanha, somente, como um mundo dos sonhos, o lugar idealizado para ele ser quem é livre de qualquer moralismo. E mesmo depois da morte de Jack, fruto dessa dificuldade social — reforçado pela mentira da ex-esposa dele, que referiu-se à morte como algo de trabalho e não como comoção popular contra um homossexual — quando Ennis parece finalmente aceitar, ele ainda apega-se à montanha. No entanto, num ato simbólico. Como casais que cravam corações em árvores, Ennis tinha aquele lugar de seus sonhos como símbolo do amor entre os dois.
   Além do excessivo melodrama, outro aspecto controverso do filme é a suposta crítica política ao governo Bush e derivados. Seja porque Bush é texano, então caubói, e os caubóis do filme são gays ou um arranhão ao conservadorismo norte-americano (que ainda existe), além de como a revista Bravo! coloca “um caubói perdido e agonizante sem arma e sem vilões a combater, representando o tempo que já passou”, que numa breve analogia, podemos dizer que seria o Bush fazendo suas guerras contra o “terrorismo” porque Bush-pai já tentara fazê-lo anteriormente e foi mal-sucedido e além disso, numa época em que se fala tanto em paz e tolerância entre os povos, ele ataca outros países com motivos dúbios e etc. Mas vale ressaltar que tais crítica podem (ou não) existir. A leitura é possível, definitivamente. No entanto, é um tanto subjetiva e completamente temporal. Em 50 anos, ou até menos, provavelmente, essa leitura política do filme dificilmente será lembrada pois é algo que pede o imediatismo e o “vivenciamento” de tais fatos.
   Podem sim associá-lo com a situação político, social ou cultural da época então presente, digamos que por volta de 2056. Mas se alguém realmente considerar que em 2056 haverá tamanha intolerância entre os povos, guerras político-sentimentais, preconceito e ignorância pelo mundo, alguém, provavelmente, não foi abraçado pelo pai na infância.
20060223

Bixos e bixetes

Recomeçadas as aulas, primeiro dia. No ano passado, eu não fui no primeiro dia ou sequer na primeira semana. Pensei "Oras, vai ficar aquela bagunça com os bixos, não tô a fim de perder meu tempo indo até lá para isso". Obviamente, o professores falaram de como seria todo o semestre e o ano, explicaram pontos importantes, abriram para dúvidas, sugestões e comentários e no decorrer da semana, grupos e exercícios foram formados e iniciados.

Ontem, segunda-feira, eu não poderia deixar isso acontecer mais uma vez porque ainda que o resultado não foi tão dramático, gosto de saber o que eles pretendem. Além disso, esse ano tem o TCC então o meu interesse era ainda maior. Sendo assim, cheguei na faculdade e a sala que eu teria a aula estava apagada e fechada. Fui à Coordenação da Faculdade de Comunicação pra saber onde seria aula. Vi um monte de pessoas da minha sala, estavam todos eufóricos com os bixos que estavam em uma sala no andar de cima, sendo recepcionados pelo corpo docente. Ali ao meu lado, todo o corpo discente de Mídias Digitais, prontos para recepcioná-los da maneira que eles acreditam ser a melhor, com tinta, tesouras, mendicância e humilhação pública.

Não considero as tradicionais recepções de calouros muito divertidas, honestamente. Entendo o simbolismo que envolve todo o ritual e o considero mais expressivo quando é uma conquista de uma vaga em universidade pública. Não acho totalmente desnecessário em particulares mas é desnecessário para mim, pessoalmente. Nem aquelas histórias cretinas de "trote solidário" me convence. Entendo a causa mas não compro muito a idéia. Quem quiser, que se divirta.

Então, claro. Não houve aula. Vi o pessoal levar os bixos para longe, todos juntos, provavelmente para fazer pedágio. Dou o braço a torcer. É um troço meio besta, meio simpático. Como eu disse, prefiro não participar desse tipo de comemoração. Mas é engraçado ver como as pessoas se divertem com aquilo tudo.

E nessa segunda mesmo, mais cedo, minha irmã fez a matrícula na UNESP. Já houve trote, com tinta e tudo. Estou realmente animado com ela, então, todos comigo: Parabéns para ela!

20080110

Funny Games

   Este ano, um dos filmes que eu estou mais ansioso para assistir é uma refilmagem.



O Funny Games original, de 1997, saiu por aqui com a incisiva tradução de "Violência Gratuita" que só conheço de cópias em vídeo ainda que exista uma versão raríssima em DVD, é um filme de produção austríaca dirigido pelo Michael Haneke e é excelente. Sério, é um filme extremamente consciente, voraz, inquietante e inesquecível. A Violência Gratuita do título em português é apenas uma impressão (do meu ponto de vista, errônea) sobre as ações do filme. Um filme bagaceira e horrível como "Albergue" merecia ser chamado de Violência Gratuita porque o filme exibe um sadismo babaca e gratuito na intenção de chocar o espectador. A história é muito mais rala do que de muita pornografia e é um filme que de fato banaliza a violência de uma maneira que o cinema não precisava ver ou ainda, poderia ser mostrado mas não sugere nenhuma discussão real além da exibição seqüencial de imagens explícitas - é chamado de "Torture Porn". Não apenas filmes mas toda a mídia em si, a banalização da violência é algo real, constante e inconsciente. As pessoas têm ânsia por cada vez mais, mais e mais e tanto se perde no caminho.
Então, foi feito este filme em 1997.
E então, um remake será lançado agora, em 2008:



O remake será um desses remakes do tipo cena-a-cena, como no remake de Psicose feito por Gus Van Sant baseado na obra de Hitchcock. As diferenças são:
a) Será feito em terreno norte-americano;
b) Terá uma distribuição e publicidade maior do que o filme anterior possibilitando um maior acesso ao filme;
c) É dirigido pelo Michael Haneke, novamente!


Funny Games é um filme que subverte a narrativa tradicional de um filme. No site oficial do remake o diretor do filme pergunta
Como podemos fazer que a audiência perceba seu papel na perda da realidade? Como o espectador pode ser transformado de vítima da mídia em potencial participante?

para em seguida nos responder
A questão não é o que temos o direito de mostrar mas como promover o entendimento, não como retratar a violência mas como deixar os espectadores ver sua relação com ela e a maneira que ela é representada.

E é uma ótima oportunidade para ver esse filme no cinema já que eu não sei como foi o lançamento do filme original por aqui, se foi direto para vídeo ou o quê. Além disso, podemos considerar como fator positivo que a versão de 1997 deverá ser relançada em DVD como é praxe no lançamento de remakes. Saiu em DVD pelo selo "Cult Filmes" em 2000 e atualmente vale ouro em sites de leilão por aqui.

Aliás, coloquei uma pequena cena do filme e não coloquei o trailer.
Sendo assim,



Agora é só aguardar o lançamento que está previsto para o dia 28 de março. Com muita ansiedade, eu diria. No meio tempo, vale a pena procurar por uma cópia do filme, ainda que em VHS, para poder assistir e ver por si mesmo e estabelecer seu próprio julgamento quanto ao filme.

O meu eu já estabeleci.

20071109

"Planeta Terror"

   Acabei de voltar de uma sessão de Planeta Terror.

   Não sei bem o que dizer ainda. Saí do cinema com uma impressão desagradável, de filmete medíocre. Honestamente, os filmes do Robert Rodriguez geralmente me deixam com essa impressão. Sin City eu achei uma bobagem, muito quadrinho e pouco cinema. E analisando agora, Planeta Terror sofre de um mesmo mal: O estilo se sobrepõe ao conteúdo. Em Sin City, o estilo incrivelmente fiel aos quadrinhos foi seu único mérito e seu grande defeito. Quadrinhos não são cinema e vice-versa. Cada mídia tem suas características próprias e a narrativa de uma nem sempre se encaixa exatamente na outra. Em Planeta Terror isso não precisaria ser um problema uma vez que é um filme que homenageia tantos outros, ou seja, tá tudo já meio que pronto.

   Mas Robert Rodriguez conseguiu inclusive diminuir o gênero em algo raso e pouco interessante. Quando li uma primeira crítica do filme, citaram A Noite dos Mortos Vivos. Citaram que Planeta Terror não vai além disso e etc. O que prova ser uma besteira gigantesca. O filme sequer se aproxima do filme do Romero. Novamente, o estilo se sobrepôs ao conteúdo: Houve tamanha preocupação com como os filmes pareciam naquela época, como eram os enquadramentos e os travellings, as cores, a sujeira na película, as falhas aqui e ali, a música, enfim, tudo o que caracterizaria um filme mais do tipo B que o filme em si soa menos interessante. O problema é que toda a estética adotada funciona, e funciona muito bem, nos primeiros minutos de filme. É divertido ver as manchas aqui e ali, o trailer falso em som tipo Mono exibido antes do filme, os movimentos desnecessários, as atuações excessivas de alguns coadjuvantes, o gore e sangue extremamente falsos e muito divertidos. Porém, passados esses minutos iniciais, a novidade acaba, para nós. Mas não para Robert Rodriguez. Para Robert Rodriguez isso nunca é demais. E o filme se encerra nisso.

   Daí, com exceção disso, tudo fica meio assim, com clima de displicência, pouco caso mesmo. O ritmo do filme é irregular e o mais assustador do filme foi o fato de eu ter notado que em muitos momentos eu estava entediado no cinema. Durante um filme de zumbis e ação. Considerando como eu aprecio filmes de zumbis - tanto os lentos como os rápidos - e como eu esperava por esse filme, achei estranho.

   Pomba, até meu desktop tá com o papel de parede do Planeta Terror:

Eu, muito feliz, aguardando a estréia do Planeta Terror.


   Daí entra aquela questão: "Oras, você estava ansioso, com expectativas em alta e elas não foram supridas, acontece". O problema é que minha única expectativa era me divertir e ver sangue falso e algumas explosões na tela. Por esse lado, realmente, foi tudo ok mas o problema do filme é esse ritmo irregular, mesmo. E como lida com muitos personagens o tempo todo, sem nenhuma profundidade ou sutilezas, você freqüentemente se pergunta por que diabos eles cortou a história ali e mudou para o outro personagem ou coisa do gênero. Ironicamente, essa cartilha de corte + corte + corte = filme dinâmico não funcionou, e o filme dependia muito disso. Aí a história parece estar sempre perdendo o foco, o que o faz perder o foco, por conseqüência.

   Apesar de tudo, o filme não é uma merda. É um médio-bom, no máximo. Não acho que o filme recrie os filmes dos gêneros apresentados com tanta fidelidade mas sequer consegue encontrar sua própria voz. Um colega me disse que "O filme não quer ensinar nada, só quer divertir e para isso, ele o faz com louvor". Não esperava lições de vida em um filme chamado Planeta Terror nem acho que um filme precisa ensinar algo para ter algum valor. A mensagem do filme é clara e pouco aproveitada, eu acredito. Vale a pena por algumas seqüências muito boas e muito divertidas mas a impressão geral não é tão divertida. Com Kill Bill Vol. 1, que também se propõe a divertir somente, eu saí do cinema andando nas nuvens. Repeti a dose no cinema, na época tinha o filme gravado em um porco VCD (Duplo!) e atualmente o possuo em DVD. E continuo achando extremamente divertido e sensacional. Não sei se com o passar do tempo eu vou acabar gostando mais de Planeta Terror. No cinema não pretendo rever, certamente. Um lançamento em DVD ganha minha locação, já. Pode ser que no televisor tudo pareça mais interessante, quem sabe?

   Agora é só aguardar o lançamento de À Prova de Morte, do Tarantino que todo mundo que já viu, crítico de cinema ou não, diz que é melhor e etc. Eu aguardava com mais interesse para assistir ao Planeta Terror, por causa do tema tão apetitoso ainda que sempre tive meus problemas com o Rodriguez. No momento, em questão de expectativas, eu diria que há um empate.