Mostrando postagens com marcador cinema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cinema. Mostrar todas as postagens

20101223

Autocombustão



    O carro buzina lá fora. Carlos grita da janela de seu Corsa 99.
    – Vamos, Márcia! A gente tá atrasado pro cinema!
    Márcia arrumava-se rapidamente em seu quarto, de frente para um grande espelho atrás da porta. Subia nos sapatos de salto alto enquanto pendurava os brincos, alcançando em seguida o pó compacto que estava sobre a penteadeira. Aplicou um pouco de blush rosáceo sobre as maçãs do rosto e colocou os cílios postiços. Realçou os lábios com um batom de um vermelho apagado e estava pronta. Aproximou-se do espelho e escancarou os dentes como um cão, analisando se havia algum resquício de batom, para em seguida pegar a bolsa deixada sobre a cama.
    Márcia desceu as escadas rapidamente e chegou ao carro. Abriu a porta e entrou.
    – Estou pronta! Vamos? – disse virando-se para Carlos.
    Carlos não sequer olhou para o lado, apenas virou a chave ligando o motor e colocou o carro em movimento.
    – Você sempre se atrasa. Espero que cheguemos a tempo para o filme.
    – Desculpe.
    – Márcia, não é questão de desculpas. Você sempre pede desculpas, mas numa outra oportunidade novamente se atrasa.
    – Por Deus, Carlos. Não é assim.
    – O Gregor já deve estar lá. Marcamos com ele às 16h e saímos de casa quinze minutos depois do horário marcado. Ele vai ficar puto.
    – O Greg sempre se atrasa também.
    – Isso é problema dele, Márcia. O nosso é chegar no horário, como se algo assim fosse possível. – disse a ela, em um tom agressivo, acima do ideal.
    Dizendo isso, Carlos alcançou um cigarro do maço e um isqueiro que estavam sobre o painel do carro, o acendeu e soltou uma densa nuvem de fumaça. Márcia permanecia em silêncio olhando para baixo. Em seguida, abriu sua bolsa e retirou para si um cigarro. Carlos olhou rapidamente para o lado e com o mesmo isqueiro que utilizara, acendeu o cigarro para ela.
    – Obrigada. – disse ela, com a voz baixa.
    – Pomba, Márcia. Não gosto de ficar puto contigo, mas eu não consigo evitar e acabo falando demais.
    – Você errou no tom, mas você tem toda razão. – falou Márcia olhando para ele.
    Carlos olhou para o lado com algum estranhamento. – Você não costuma dar o braço a torcer tão facilmente.
    – Às vezes as pessoas mudam. Preferiria que eu começasse a gritar contigo quando você sabe tanto quanto eu qual é o ideal da situação? – perguntou Márcia, tragando seu cigarro em seguida.
    – Não, não, em absoluto. – respondeu Carlos, enquanto refletia sobre aquele súbito momento e distraidamente coçava o braço e, depois, o pescoço.
    – Olha, tem uma vaga ali! – irrompeu ela apontando para um espaço vazio entre dois carros.
    Carlos lançou a bituca pela janela e estacionou o carro com leveza. Ele sempre fora um bom motorista, do tipo de pessoa que você rapidamente percebe sua habilidade ao volante não em detrimento aos outros motoristas, mas por ser um motorista acima da média. Felizmente ele nunca se gabara de tal qualidade, ele simplesmente dirigia.
    Desceram do carro e caminharam até o cinema em silêncio. Carlos olhou para os horários das sessões do filme e em seguida para seu relógio de pulso, conferindo se o atraso tinha sido prejudicial. – Chegamos a tempo! – completou.
    Ela olhou para Carlos sorrindo, passou a mão nos longos cabelos castanhos e olhou ao redor. 
    – Onde está o Gregor?
    – Ainda mais atrasado do que nós! – ele disse rindo. Ela riu também. – Vou comprar os ingressos, por via das dúvidas.
    Enquanto comprava os ingressos, ela apanhou seu celular da bolsa e ligou para Gregor. – Oi Greg! Onde você tá?
    – Estou chegando aí em oito minutos. Já começou o filme?
    – Não, não. Fica tranquilo. O Carlos já tá comprando os nossos ingressos.
    – Ah. Puxa. – Gregor parou um instante. – Obrigado!
    – Não por isso. Nos falamos já já.
    – Até logo!
    Ela desligou o celular e olhou em direção a bilheteria. Carlos já estava voltando, com os ingressos na mão, sorrindo.
    – Conseguiu falar com ele?
    – Consegui sim, ele está chegando.
    – Ah, Greg… Vamos fazer assim, você quer pipoca?
    – Pipoca? Não, obrigada. – ela respondeu ainda segurando o celular com a mão esquerda, olhando distraidamente para um cartaz de uma das próximas atrações. 
    – Tem certeza?! Eu vou ali comprar. Não consigo ver um filme sem pipoca. Vamos lá, eu compro um chocolate pra você.
    Chegando à bombonière, ele pediu sua pipoca, refrigerante e um chocolate que estava na vitrine. A voz de Gregor distraiu a ação.
    – Cheguei a tempo? – ele perguntou ao casal, animadamente. Sua testa estava molhada de suor e seu ar, bastante cansado, mas Gregor exibia um largo sorriso em seu rosto. 
    – Bem a tempo! – respondeu Carlos. 
    Carlos deixou a pipoca sobre o balcão e apertou vigorosamente a mão de Gregor. Em seguida, Gregor beijou o rosto de Márcia, abraçando-a em seguida. – Como vão? – perguntou.
    – Bem, muito bem. A Márcia nos atrasou um pouco mas ainda assim chegamos antes de você, cara! – ele disse em tom de brincadeira. Márcia o olhou indignada. Gregor olhou para Márcia percebendo sua irritação e sentiu-se um pouco incomodado.
    – Eu sou o rei dos atrasos! – desconversou. – Escutem, vocês querem entrar já? Além de pegar um bom lugar, gostaria de me aproveitar dos benefícios reconfortantes do ar condicionado da sala.
    – Quem mandou vir correndo? – Carlos provocou.
    – Se eu não venho correndo, eu não chego!
    Márcia já começara a caminhar em direção à sala sem falar, consequentemente atraindo os dois rapazes atrás de si.

* * *

    O filme era uma agitada história policial, com carros em alta velocidade e explosões regulares. Márcia sentia-se profundamente entediada, ora pela película em si, ora pela irritação com o noivo. Sem grandes movimentos, inclinou-se para a esquerda, ao ouvido de Carlos e sussurrou. – Volto já.
    Levantou-se, passou em frente a Gregor, saiu da sala. Foi em direção à rua com a bolsa a tiracolo, parando no alto das escadas que levava à calçada em si. Apanhou um cigarro da bolsa e acendeu com um fósforo. Batia o pé no chão, rapidamente, extremamente nervosa. Observava os arredores, todos os carros que passavam, as pessoas passando, o balançar das árvores. O vento soprava seus cabelos e tocava seu rosto com gentileza. Uma mão tocou seu ombro. Era Gregor.
    – Posso te acompanhar? – ele perguntou.
    – Sim, claro! Você quer um cigarro?
    – Não, estou com o meu aqui. – ele falou, alcançando um maço em seu bolso e acendendo um cigarro em seguida. – Que filme bobo, né?
    – Sim, insuportável.
    – Não sei se fico mais impressionado com as atuações geniais ou com a facilidade que tantos carros explodem na sequência. Você conseguiu ver a marca dos carros? Porque eu sei que tipo de carro eu não quero comprar: os de autocombustão.
    Márcia olhou para Gregor e riu um pouco, desviando o olhar em seguida, voltando a desatenção para frente, tragando o cigarro e soltando a fumaça em seguida, mas permanecendo em silêncio.
    – Tá tudo bem, Márcia? – ele perguntou olhando diretamente para as têmporas dela, que estavam úmidas de suor, apesar da temperatura estar bastante agradável naquela época do ano.
    Ela permaneceu olhando para o horizonte. – É que o Carlos me tira do sério! – ela disse com uma clara irritação em sua voz, voltando o rosto para ele, que a olhava calmamente. – Apesar de cobrar uma postura de mim e aparentemente me entender, ele simplesmente não consegue deixar um momento, uma única falha passar.
    – Você fala do negócio do atraso?
    – Sim, o atraso. Você acredita que ele falou aquilo? Precisava frisar quem causou a droga do atraso? Não chegamos antes de você de qualquer maneira? – ele consentiu com a cabeça. – Pois bem, qual a diferença? Note, não estou questionando quem atrasou a quem, eu causei o atraso, sei disso. Mas questiono a atitude de trazer isso, sem a menor necessidade, apenas pela provocação, sabe? – dizendo isso, Márcia percebera que seu cigarro já estava apagado e segurava apenas a bituca, lançando-a ao meio-fio e pegando mais um cigarro em sua bolsa.
    – Mas o Carlos é bastante brincalhão, não deve ter sido por mal, Márcia.
    – Essa não foi a primeira e nem sequer será a última vez que ele faz esse tipo de coisa. O Carlos simplesmente não sabe ficar quieto, em alguns momentos. E pensando bem, não é nem questão de provocação. É o fato dele ser inseguro e utilizar esse tipo de brincadeira inocente para deixar claro para si e para quem o ouvir de que a culpa é minha. 
    Enquanto Márcia falava, Gregor sentou-se ao primeiro degrau da escada e fez um gesto para que ela o acompanhasse. Ela sentou-se ao seu lado e continuou.
    – E não é só isso, e não só o Carlos. É tudo. São todos. Todos são assim, todos são egoístas e imperdoáveis, sabe? Que droga de mundo é esse, Greg? Você fica ao lado do seu noivo, dos seus amigos, de sua família. Faz de tudo para que todos fiquem bem, larga o que está fazendo para ajudar a quem for, no momento que for. E no momento, nos poucos momentos que você simplesmente precisa de de uma palavra amiga, um conforto, uma preocupação, eles viram as costas pra você e deixam você na mão. – Márcia começou a massagear suas têmporas, fazendo uma pequena pausa. Alguns fios de cabelo já estavam colados em sua têmpora devido ao suor enquanto falava e agora, começavam a se libertar novamente.
    – Você realmente precisa se acalmar um pouco, Márcia. Desse jeito você vai ter um treco daqui a pouco. – Gregor falou colocando a mão sobre o ombro de Márcia, massageando-a gentilmente.
    – Greg, não pense que eu sou mal agradecida ou acredite que apenas porque eu fiz algo pela pessoa, a pessoa deva fazer algo por mim. Não é isso, entende? Não é uma mera questão de troca. – dizendo isso, ela deixou as têmporas livres novamente. – É o simples fato de você saber que pode contar com alguém, ou se deixar pensar que esse alguém pode proporcionar surpresas, essas coisas, sabe?
    Gregor olhava atentamente para Márcia enquanto ela falava. Ela gesticulava muito e seus olhos estavam cheios d’água.
    – Aí, quando você faz algo errado, que desagrada ou simplesmente precisa de um pouco de ajuda, os outros, o Carlos, todos são incapazes de simplesmente perceber que todos erram ou que a outra pessoa precisa de ajuda. Eles só olham para si mesmos, o tempo todo. Ficam tão ensimesmados que não percebem todo o apoio que você já deu, cobram mais apoio e jogam na sua cara seus erros. – dizendo isso, ela começou a buscar em sua bolsa um pequeno pacote de lenços de papel. – Essa droga de nariz que fica sempre escorrendo. – ela secou seus olhos e limpou delicadamente seu nariz.
    Gregor observava a aventura de Márcia com o lenço de papel, com a cabeça apoiada em sua mão e seu cotovelo apoiado sobre sua perna. – Lembra quando nós nos conhecemos, que estudávamos juntos no ensino médio? – ele perguntou.
    – Sim, lembro sim. O que é que tem? – ela indagou ainda distraída com a coriza.
    – Você se lembra que você namorava esse rapaz, o Alberto Qualquercoisa? Como você era feliz ao lado dele?
    – Claro. E você namorava a minha prima, a Leila. – e colocou o lenço usado em uma pequena sacolinha plástica que carregava consigo para tal finalidade. 
    – Pois é… Lembra daquele dia em que todos viajamos para o interior e fomos àquele parque com um baita lago lindo em um dia super calmo?
    – Valha-me Deus, Greg, mas que suspense todo é esse? É claro que eu me lembro, eu me lembro de tudo daquela época.
    Gregor se levantou e se espreguiçou. – Pois bem, aquele dia foi um dos dias mais simples que já passei em minha vida. E ainda assim um dos mais divertidos. Eu me lembro de cada cor, de cada textura, de cada cheiro. – ele sentou-se novamente. – Eu tenho aquela imagem em minha mente com a força da mais bela pintura jamais feita.
    – Aquele dia foi mesmo incrível. Lembra que fizemos uma corrida com você e o Alberto de cavalos, nós nos ombros de vocês e aí vocês dois já tinham armado tudo e lançaram a gente no lago? Seus tontos! – dizendo isso, ela sorriu e deu um tapa amigável no ombro de Gregor. 
    Ambos ficaram rindo por algum tempo, diluídos em memórias. As memórias daquele dia ensolarado, o lago tal qual um espelho, as árvores lindas, vivas e verdejantes. As brincadeiras infantis de corrida, polícia e ladrão e esconde-esconde entre quatro jovens adultos sobre a grama verde e cheirosa. O piquenique confortável, as risadas, os sorrisos, as gargalhadas. A terra úmida próxima ao lago que envolvia seus pés descalços e a simplicidade de uma simples tarde, distante de tudo e todos. 
    Subitamente, Márcia voltou a si. – Mas e daí, Gregor? O que é que tem tudo isso?
    – Oras. – ele acendeu outro cigarro. – Nesses momentos, geralmente eu gosto de me transportar para os melhores lugares de minha memória e me deixar tomar pelas boas energias do que já passei.
    – Mas Greg… As coisas são diferentes hoje. – agora quem pegou outro cigarro em sua bolsa foi ela. – As coisas são completamente diferentes, aliás.
    Greg tragou o cigarro e soltou a fumaça lentamente. – Aí é que eu discordo. Por que elas são diferentes? Por que elas precisam ser diferentes?
    – Ué?! Porque eu mudei. Porque as coisas mudam. As pessoas mudam. Eu não namoro mais com o Alberto, mas com o Carlos, inclusive.
    – Mas me diz, você se veria casando com esse Alberto caso ele tivesse a pedido em casamento? Tanto faz se naquela época ou hoje em dia?
    – Não sei! Não sei… Como eu posso saber um troço desses, assim? – ela respondeu um pouco indignada.
    – Pensa bem. Você não continuou com o Alberto por uma razão. O tempo que vocês passaram juntos foi ótimo, mas uma hora, acabou. Com o Carlos, esse tempo não apenas está acontecendo como você quis seguir adiante, vocês vão se casar até, caramba!
    – Sim, eu sei.
    – Pois bem, Má, alguma coisa a fez pensar em largar o Alberto quando você terminaram e a disse para continuar com o Carlos independente desses ou quaisquer problemas. 
    – Mas… Droga, Greg, mas que droga. Eu amo o Carlos mas às vezes as coisas ficam… insustentáveis. 
    – Sinceramente, Má? Só você pode ser feliz, se fazer feliz. Ainda que você tenha escolhido ter ele ao seu lado para o resto da sua vida, ele precisa de ajuda para entender como você se sente e o que a agrada ou desagrada. Mas sem se deixar… Não sei? Vitimar? Não se deixe levar por esse tipo de ideia e se considerar uma vítima da situação. Só você pode ser agente da sua felicidade, ninguém mais. Você lembra com tanto carinho daquele dia porque você escolheu estar lá, naquele dia, conosco, brincando e se divertindo. Entende? – Greg terminou de falar e lançou a bituca no degrau ao lado de seu pé, extinguindo o cigarro com a ponta do pé. 
    – Má, você é feliz? – completou.
    Márcia permaneceu em silêncio, após as palavras dele e ficou novamente encarando o vazio, fumando, absorvendo, refletindo, ponderando. Por fim, acabou abaixando os olhos e viu o seu pequeno relógio ao redor de seu pulso delicado apoiado em sua perna. Levantou-se de sopetão lançando sua bituca em direção à rua.
    – Minha nossa! Já estamos aqui há quase meia hora!! Vamos voltar correndo, já passou da metade do filme!
    E ambos correram de volta para o cinema.

* * *

    Já próximo ao clímax do filme, onde o mocinho está prestes a resgatar a mocinha, montado em seu carro veloz e armado com a mais bela pistola, o cinema estava repleto de sons de tiros, explosões, barulhos de motor e ameaças do vilão. Carlos estava vidrado com toda aquela ação. A sala, iluminada apenas pelo reflexo da projeção das sequências repletas de adrenalina e tensão estava quase que por completo imersa nos rumos inesperados que o roteiro tomara, deixando todos sem fôlego, à exceção de Márcia.
    Márcia voltara um pouco desconexa. Não conseguia prestar atenção às sequências daquele filme, seus olhos encaravam a projeção mas buscavam visualizar outras questões. Sentia-se afligir sentada ali, no escuro, vendo um filme desinteressante, dos tantos que já vira ao lado de Carlos simplesmente porque são os filmes que ele gosta de assistir. Ela nem gostava tanto assim de cinema, afinal. E buscava em si as mais bonitas imagens para sentir-se melhor. Uma tentativa de acalanto próprio.
    Enquanto homens atiravam uns contra os outros na tela, Márcia sentia novamente seus olhos se encherem de lágrimas. Dessa vez, inclinou-se para a direita, em direção a Gregor.
    – Greg? – sussurrou. – Lembra quando naquele dia no parque nós subimos em uma árvore para ver o pôr-do-sol e quando anoiteceu, todos descemos, menos você porque você se lembrou, lá do alto que tinha medo de altura e levou quase meia hora pra descer e todos quase morremos de tanto rir?
    – Lembro, claro. – ele sussurrou de volta.
    – Greg… – ela apertou a mão dele contra a dela. – Eu era feliz naquela época, não era?

20080412

Ruído

De quinta para sexta eu dormi pouquíssimo. Precisava terminar uns trabalhos que era pra sexta-feira-ontem. No final das contas, o que faltava me ocupou a tarde toda e, de qualquer maneira, não foi necessário entregar ontem. Ficou pra segunda. Apesar de ter dormido pouco mais de duas horas, o dia foi bem produtivo e tudo, com alguns lapsos aqui e ali mas produtivo. Pronto.

À noite, fui ao Cinesesc. Há um festival dos Melhores Filmes de 2008 e foi exibido o Império dos Sonhos (Inland Empire) do David Lynch. Já tinha visto o filme e é incrível. Com essa chance de ver no cinema, novamente e sob pretexto do TCC — a minha monografia será sobre sonhos com um estudo de caso do David Lynch —, fui. O filme acabou meia-noite e qualquer coisa. Sem chance de voltar para casa, ficamos em um bar até os transportes públicos voltarem a circular.

Eu tinha uma palestra na DRC sobre o InDesign CS3 para ir. Marquei isso há um tempão e estava realmente disposto a ir. Queria ter voltado cedo pra casa justamente por isso mas eu estava sem chances de voltar. Cheguei em casa às sete horas e a palestra seria às dez. Eu cheguei em casa com o sono acumulado de dois dias conturbados e ruidosos e eu estava realmente, realmente cansado. No caminho para casa eu pensei "Vou chegar, tomar um banho e já ficar pronto pra ir". Chegando em casa, percebi que nem bem conseguia sentir minhas pernas e decidi dormir um pouco. Por apenas trinta minutos, para esticar as pernas. Caso contrário, minhas pernas poderiam ceder, eu cairia em algum lugar e acabaria dormindo ali mesmo então, me coloquei na cama. Aí, dormi.

E dormi forte.

Acordei às 10h26 em choque, puto, puto, puto. Perdi a porra da palestra. Sou um irresponsável do pior tipo. Lembrei que quando o celular tocou, eu estava naquele estado de sonhar acordado. Nesse estado de uma forma bem acentuada. Lembro de um barulho absurdo, ridiculamente irritante. E eu não conseguia achar o botão, qualquer botão do celular. Eu apertava as costas do celular insistentemente, tentando cessar aquele barulho. Uma tristeza.

Enfim, perdi a maldita palestra. Diabos. E então... Que remédio?

Dormi até o meio-dia.

20080212

RESENHA: "O Segredo de Brokeback Mountain"

(Nota: Essa resenha foi redigida e entregue no dia 23/02/2006 para a disciplina de História da Arte, no primeiro semestre do curso de Mídias Digitais da Universidade Metodista de São Paulo. Como estou no meu antigo computador pelo menos até que o Principito esteja de volta pra casa. Encontrei esse texto entre os arquivos que só tenho nessa máquina. Boa leitura!)

   O Segredo de Brokeback Mountain é o (já) lendário filme dos caubóis gays. Polêmicas, desconforto, uma reação tão previsível quanto impressionante. Uma amiga minha que me acompanhou no cinema se contorcia durante a sessão nos momentos mais hardcore do filme (Por mais softcore que seja, apesar de não ser um pornô. Lógico) e sei que ela tem amigos homossexuais. Porém, ela sente-se desconfortável e visivelmente incomodada com a relação entre dois homens. “Imagina aquilo entrando”, disse. Particularmente, tais cenas não me incomodam. São demonstrações de sexo, como qualquer outra, heterossexual, homossexual entre mulheres, etc. Não tão etc, claro. Zoofilia, necrofilia e toda essa pansexualidade no sentido amplo de que tudo é sexo (Ou “fornicável”) me incomoda um bocado.
   Porém, o filme apresenta essa relação entre os dois homens de uma maneira muito tranqüila. Poética, até. No entanto, o excesso de melodrama acaba anestesiando demais alguns temas queridos ao filme, em minha opinião, permitindo ao espectador comum apenas a visão do romance entre os dois homens. Algo semelhante no dramalhão Titanic, que faz uso de ótimas tecnologias e um romance — também — “impossível” mas parece banalizar toda a tragédia em si. O que dá uma certa vantagem à Brokeback Mountain por não situar o filme dentro de nenhum acontecimento histórico assim tão relevante.
   Situando o filme, inicialmente, em 1963, Ang Lee usa de uma montagem “lenta”, valorizando muito a montanha do título e depois, com a tensão crescente do filme, as cenas tornam-se mais curtas, gradativamente, o que sim, é uma fórmula. Contudo, entendo o valor dessas imagens como foram apresentadas. O início valoriza a condição dos homens rústicos em contato com a natureza. Sendo esses homens tão rústicos, tais quais os rústicos caubóis do século XIX e, em função da natureza bucólica destes — independente do século em que se encontram — montagens paralelas constantes, cortes da geração MTV e a valorização do plástico não têm razão aqui e para tanto, o filme tem uma carreira de premiações e elogios de, em sua maioria, críticos e pessoas mais velhas, mas arrisca-se em desagradar a mesma geração dos cortes rápidos e videoclipes modernos, uma valorização da velocidade da edição sobre o conteúdo, o que é uma pena. Há uma vivacidade tão grande em contraste à essa aparente monotonia que os personagens não poderiam viver num mundo mais real.    Posteriormente, o filme projeta-se focando menos na natureza e mais nos personagens, não coincidentemente quando a ligação entre Ennis e Jack torna-se mais forte. O que é, até um certo ponto, cliché em termos de imagem cinematográfica para dar uma visão mais intimista dos personagens para o espectador, mas utilizando-se ainda de uma leveza na câmera pouco ordinária, sendo completada pela fotografia eficiente e pouco chamativa (por isso mesmo genial, já que adequou-se tão bem ao filme em si) e as ótimas atuações de todas personagens, fossem principais ou coadjuvantes.
   O período do filme também “coincide” com o período da revolução musical e sexual. Andy Warhol com sua Factory, nos anos 60 gerenciava o Velvet Underground e em oposição ao que é apresentado na película, uma valorização máxima ao plástico. Em 1963, os Beatles colocava Please Please Me em primeiro lugar nas paradas britânicas, onde essa “revolução” musical mostrou-se pioneira e depois copiado pela América. Na América do Norte, a música country e folk, no começo dos 60 era o grande evento, assim como Elvis e toda a Motown em si. E essa música country como a de Johnny Cash (Que, vale o trocadilho, como disse Bono Vox “Todo homem é um maricas se comparado a Johnny Cash”) é apresentada no filme porque ela era (e ainda é, imagino) popular no interior do país. O plástico adorado por Andy Warhol, assumidamente homossexual, e seus seguidores, como Lou Reed, que como o próprio diz no livro Mate-me, Por favor, de Legs McNeil e Gillian McCain, “Sou um chupador de pau, meu bem” exibe uma naturalidade na aceitação pessoal com o assunto (Apesar de não ser tão amplamente aceita pela sociedade em geral) que é típica de uma cidade grande, como a Nova York de Warhol e Reed. No filme, há uma dificuldade de aceitação à própria sexualidade. Na negação, no tradicionalismo — fato representado pelos personagens casarem-se e terem filhos, como qualquer homem heterossexual faria — e mesmo na violenta reação da sociedade que exclui e/ou assassina uma pessoa por ignorância (Talvez uma herança da igreja e suas leis incoerentes). De qualquer forma, o filme rústico assemelha-se à homossexualidade mais livre, retratada nesse trecho do livro, mas vai além. No livro, Billy Name complementa o comentário de Reed dizendo “Então Lou Reed sentava na minha cara enquanto eu me masturbava. Era como fumar casca de milho atrás do celeiro, coisa de garotos. Não havia paixão ou romance envolvidos. Era só uma questão de aliviar as bolas naquele momento, porque sair com garotas ainda tinha a ver com ficar envolvido e toda aquela merda. Com caras era mais fácil”. No filme, o “aliviar as bolas naquele momento” transformou-se em paixão. Os homens apaixonam-se.
   Em 1962, John Ford lançou O Homem que Matou o Facínora. Como em outros filmes do gênero, homens enfrentam, com pioneirismo, o oeste “selvagem” e, geralmente, dominando-o. Tal qual esse pioneirismo rústico retratado nesses filmes, o filme de Lee exibe uma espécie de pioneirismo sexual. Tanto na (quase) inovação cinematográfica, que de certa forma bloqueia a homossexualidade entre homens quanto entre tais personagens. Eles não enfrentam índios e suas terras desconhecidas, não têm bandidos canastrões ou donzelas em perigo. O desconhecido aqui era o limite de seus desejos. O limite sexual em si. E assim sendo, o filme exibe tal pioneirismo com êxito e, por essa ótica podemos afirmar que é um filme de caubóis, como os outros. A mudança (ou atualização) temporal é parte chave para o desenrolar do tema.
   Ennis também é um caubói, como os outros. Porém, sem os temas típicos de um faroeste, ele é algo passado. E com medo de ser esquecido. Semelhante ao medo de Holden Caulfied em O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, frente à iniciação da vida adulta e o desapego da inocência, sozinho e perseguindo fantasmas de um passado infantil e feliz, Ennis vê-se nas sombras de uma vida que sequer viveu e agora encontra-se apaixonado por alguém do mesmo sexo, distante de seus familiares e amigos, perseguindo os fantasmas do amor por Jack. Para isso, teria de lidar e transpor o próprio preconceito, moralidade e medo da violência, que presenciou quando garoto, e trazer esse amor para o “mundo real”. Apesar de ter deixado a família e amigos, sua crise interna o permite assumir o romance enquanto na Montanha, somente, como um mundo dos sonhos, o lugar idealizado para ele ser quem é livre de qualquer moralismo. E mesmo depois da morte de Jack, fruto dessa dificuldade social — reforçado pela mentira da ex-esposa dele, que referiu-se à morte como algo de trabalho e não como comoção popular contra um homossexual — quando Ennis parece finalmente aceitar, ele ainda apega-se à montanha. No entanto, num ato simbólico. Como casais que cravam corações em árvores, Ennis tinha aquele lugar de seus sonhos como símbolo do amor entre os dois.
   Além do excessivo melodrama, outro aspecto controverso do filme é a suposta crítica política ao governo Bush e derivados. Seja porque Bush é texano, então caubói, e os caubóis do filme são gays ou um arranhão ao conservadorismo norte-americano (que ainda existe), além de como a revista Bravo! coloca “um caubói perdido e agonizante sem arma e sem vilões a combater, representando o tempo que já passou”, que numa breve analogia, podemos dizer que seria o Bush fazendo suas guerras contra o “terrorismo” porque Bush-pai já tentara fazê-lo anteriormente e foi mal-sucedido e além disso, numa época em que se fala tanto em paz e tolerância entre os povos, ele ataca outros países com motivos dúbios e etc. Mas vale ressaltar que tais crítica podem (ou não) existir. A leitura é possível, definitivamente. No entanto, é um tanto subjetiva e completamente temporal. Em 50 anos, ou até menos, provavelmente, essa leitura política do filme dificilmente será lembrada pois é algo que pede o imediatismo e o “vivenciamento” de tais fatos.
   Podem sim associá-lo com a situação político, social ou cultural da época então presente, digamos que por volta de 2056. Mas se alguém realmente considerar que em 2056 haverá tamanha intolerância entre os povos, guerras político-sentimentais, preconceito e ignorância pelo mundo, alguém, provavelmente, não foi abraçado pelo pai na infância.
20060223

20080210

(a)cúmulo

  • Meu computador usual — o Principito — foi levado, na semana passada, para um lugar decente. Constatado o problema, placa mãe e fonte, custará uma nota para voltar a operar — muito acima dos 380 prometidos pelo safado especialmente porque só a minha placa mãe está na casa dos 900. Porém, minha mãe paga um seguro residencial e que felizmente cobre o dano causado pelo maldito raio. Não sei quando nem nada, e considerando o tanto que eu conheço de seguradoras, por meio de filmes (essencialmente) provavelmente levará uns quatro anos para pagar o computador. E enviará uma pessoa para investigar tudo aqui em casa, que será muito metódico ainda que atrapalhado e desastrado, causando inúmeras confusões enquanto estará às voltas com uma garota que será charmosa e desencanada, com um estilo de vida totalmente diferente do seu. E será interpretado pelo Ben Stiller.

  • Estou feliz de dizer que apesar do Principito estar fora de questão, no momento, ressucitamos meu antigo computador, que estava com um curto na placa de rede e não ligava. Sanado o problema, agora ele funciona. Não que seja bom ou ruim. É tolerável. Mas na medida do possível. Sinceramente, depois de me acostumar ao outro computador, isso aqui me faz sentir como se eu estivesse em um episódio de Além da Imaginação. Eu fui postar pelo Blogger e ele levou mais de um minuto para transcrever uma única linha do que eu tinha digitado aqui, a primeira desse post. Estou no Bloco de Notas que felizmente responde instantaneamente a minha digitação. Está insuportavelmente lento — no duro. Outro exemplo é a instalação do programa da câmera digital. Está instalando há, literalmente, cento e quarenta minutos. Estou perto assim de mandar o programa às favas e esperar o meu outro computador voltar para mexer com as fotografias.

  • Ontem eu comecei um curso de História do Cinema ministrado pelo "jornalista, cineasta, professor e crítico de cinema" Alfredo Sternheim e que será semanal, aos sábados até o final do ano. A primeira aula foi boa. Faltou exibir alguns filmes que foram, pelo menos, citados mas que provavelmente deixou tudo um pouco mais suspenso para quem não conhece muito do período, aquele do início do cinema. Eu não conheço muito mas conhecia alguns tantos dos quais o Alfredo citou então foi bastante proveitoso. A minha impressão de que faltou ilustrar um pouco mais foi reforçada após um pequeno intervalo de dez ou quinze minutos em que tinha um número um pouco menor de pessoas, aparentemente. Acho que só será possível realmente falar em evasão na próxima semana, caso ocorra baixas significativas. De qualquer maneira, quem estiver interessado em um curso gratuito de História do Cinema pode se inscrever. Não sei bem se para esse módulo mas no site tem mais informações. Os telefones são (11) 4125-0582 e (11) 4123-8083. Liga lá!

  • Amanhã começa oficialmente as minhas aulas na faculdade. O quinto semestre de Mídias Digitais. Estou curioso para ver o que será dito sobre o TCC, que sei (ou imagino) que terá uma participação nesse semestre e será a estrela do próximo. O que torna oficialmente hoje, dez de fevereiro, meu último dia de férias.

  • Estou quebrado, em período de recessão. Preciso de um emprego ou as coisas não ficarão muito boas. Preferencialmente um estágio ou qualquer coisa assim porque eu vou terminar o meu curso no final do ano. Já falei que só será após um TCC?

  • Hoje, em São Bernardo, há a Mostra de Cinema Internacional. Hoje os filmes são "Infância Roubada" e "Piaf — Um Hino Ao Amor", sempre com exibição em película (de acordo com os organizadores). O ingresso custa 3r$ e com direito a meia entrada para estudantes.

Vou lá,

20080110

Funny Games

   Este ano, um dos filmes que eu estou mais ansioso para assistir é uma refilmagem.



O Funny Games original, de 1997, saiu por aqui com a incisiva tradução de "Violência Gratuita" que só conheço de cópias em vídeo ainda que exista uma versão raríssima em DVD, é um filme de produção austríaca dirigido pelo Michael Haneke e é excelente. Sério, é um filme extremamente consciente, voraz, inquietante e inesquecível. A Violência Gratuita do título em português é apenas uma impressão (do meu ponto de vista, errônea) sobre as ações do filme. Um filme bagaceira e horrível como "Albergue" merecia ser chamado de Violência Gratuita porque o filme exibe um sadismo babaca e gratuito na intenção de chocar o espectador. A história é muito mais rala do que de muita pornografia e é um filme que de fato banaliza a violência de uma maneira que o cinema não precisava ver ou ainda, poderia ser mostrado mas não sugere nenhuma discussão real além da exibição seqüencial de imagens explícitas - é chamado de "Torture Porn". Não apenas filmes mas toda a mídia em si, a banalização da violência é algo real, constante e inconsciente. As pessoas têm ânsia por cada vez mais, mais e mais e tanto se perde no caminho.
Então, foi feito este filme em 1997.
E então, um remake será lançado agora, em 2008:



O remake será um desses remakes do tipo cena-a-cena, como no remake de Psicose feito por Gus Van Sant baseado na obra de Hitchcock. As diferenças são:
a) Será feito em terreno norte-americano;
b) Terá uma distribuição e publicidade maior do que o filme anterior possibilitando um maior acesso ao filme;
c) É dirigido pelo Michael Haneke, novamente!


Funny Games é um filme que subverte a narrativa tradicional de um filme. No site oficial do remake o diretor do filme pergunta
Como podemos fazer que a audiência perceba seu papel na perda da realidade? Como o espectador pode ser transformado de vítima da mídia em potencial participante?

para em seguida nos responder
A questão não é o que temos o direito de mostrar mas como promover o entendimento, não como retratar a violência mas como deixar os espectadores ver sua relação com ela e a maneira que ela é representada.

E é uma ótima oportunidade para ver esse filme no cinema já que eu não sei como foi o lançamento do filme original por aqui, se foi direto para vídeo ou o quê. Além disso, podemos considerar como fator positivo que a versão de 1997 deverá ser relançada em DVD como é praxe no lançamento de remakes. Saiu em DVD pelo selo "Cult Filmes" em 2000 e atualmente vale ouro em sites de leilão por aqui.

Aliás, coloquei uma pequena cena do filme e não coloquei o trailer.
Sendo assim,



Agora é só aguardar o lançamento que está previsto para o dia 28 de março. Com muita ansiedade, eu diria. No meio tempo, vale a pena procurar por uma cópia do filme, ainda que em VHS, para poder assistir e ver por si mesmo e estabelecer seu próprio julgamento quanto ao filme.

O meu eu já estabeleci.

20071216

Meu amigo flexível

   O drama do meu cartão começou há algum tempo. Talvez meses. Possuo um daqueles cartões do Banco Real Universitário Internacional. Tem o cartão comum e o minicard, que nada mais é que um cartão "43% menor" bem inútil, que não o permite fazer saques em caixas rápidos ou de auto-atendimento mas quebra um galho em vendas a débito ou crédito, pessoalmente ou não.


   Certo dia, noto que perdi o cartão grande. Provavelmente, estaria em meio às minhas coisas, em meu quarto. Não sou uma pessoa que seria chamada de "organizada" - obviamente organização é uma questão de ponto de vista porque para mim, como para qualquer desorganizado do mundo (Uni-vos!) há uma organização que obedece regras internas e pessoais. Eu só começo a me preocupar quando as coisas desaparecem e eu não faço a menor idéia de onde elas estejam. Ou quando as pilhas de organização começam a atrapalhar a passagem. Então, eu estava no meio de um projeto da faculdade e fazendo um estágio durante esse semestre o que me impossibilitava de
a) arrumar o quarto porque eu estava ocupado e cansado demais nos poucos momentos livres que surgiam; e
b) sem o meu cartão de crédito/débito.

Ainda bem que ainda possuía o tal minicard. Não me permitia sacar dinheiro nos caixas por aí, só na boca do caixa, após aquelas filas desumanas de gente com problemas realmente impossíveis de serem resolvidos no caixa rápido. Como o meu estágio ocupava basicamente o horário útil de um banco, era raro eu ter dinheiro em mãos. Só comia ou bebia ou comprava ou freqüentava lugares que aceitassem Visa. Não, meu senhor, não é crédito não, é débito mesmo, é que eu perdi o cartão comum e não consigo sacar dinheiro mas eu tenho algum dinheiro em conta. Repeti essa desculpa inúmeras vezes, quase um mantra, uma explicação meio boba mas para mim, importante, porque às vezes o valor da compra era relativamente baixo e voilà, não tinha papel ou moeda que cobrisse isso. Mas esse dinheiro numeral e eletrônico tava lá.

   O minicard também me permitia utilizar a função crédito, online ou em lojas quaisquer, o que era bom para presentes e compras pessoais. Pretendia comprar assim alguns presentes de Natal, hoje ou amanhã, para chegar no decorrer dessa semana, preferencialmente antes do Natal. Não seria nada dispendioso. O estágio acabou, estou meio quebrado por hora mas Natal é Natal! Além disso, tem uma meia dúzia de filmes que eu quero ver e com a promoção dos 3r$ para estudantes em alguns cinemas de São Paulo seria uma pechincha! Ainda bem que cinema aceita débito.

   Não tinha efetivamente cancelado meu cartão porque imaginava que estava perdido no meu quarto. Estava no meio dos processos da faculdade, com gastos eventuais e importantíssimos para o desenvolvimentos dos trabalhos e compra de materiais realmente necessários. Seria fácil, arrumaria meu quarto, acharia o cartão e ficaria tudo bem, sem transtornos.

   Ontem, de repente, comecei a arrumar meu quarto à maneira clássica. Minha arrumação costuma ser lenta, eu não seria um bom diarista se diaristas-homens fossem comuns. Sou de baixíssima produtividade porque quando eu arrumo as minhas coisas, funciona como uma viagem no tempo, um regresso a dias passados, um grande e bonito flashback. Leio papéis e anotações, faço organizações temáticas, cromáticas, de texturas e momentos. É um processo cansativo mas gratificante. Depois, começo a colocar cada grupo ou momento em seus lugares, a arrumação devida. Quando já tinha passado por todos os cantos do meu quarto e olhado em todos os blocos de papel, livros, revistas, anotações, desenhos, rascunhos, panfletos, post-its, caixas e pacotes, pensei
"pomba, perdi o cartão mesmo".

   Impulsivamente agarrei o minicard e liguei correndo para o Real Cartões para cancelar o cartão atual e pedir o outro. Fui atendido pela Daiana, moça simpática que confirmou meus dados para minha segurança e me pergunta
"quando o cartão foi perdido? Hoje mesmo?"
"Ahm... Dei pela perda ainda agora mas ele já tá desaparecido há algumas semanas, acho que um mês", o que é mentira. Faz bem mais que isso mas me senti constrangido em falar que estava sem o cartão há tanto tempo porque não tinha olhado no meu quarto ainda.
"Certo, senhor. Então, com o cancelamento do cartão atual, naturalmente o senhor quer uma nova via do cartão, não?"
"Isso! Preciso de um cartão novo, por favor"
"Sim, só um instante"
...
"Senhor, o seu cartão já está cancelado e em até sete dias úteis você receberá em seu endereço uma nova via do seu cartão!"
"E do minicard também?"
"Sim, senhor. Do minicard também. Note que a partir de agora o minicard que o senhor já possui não irá mais funcionar"
"Ah, tudo bem! Obrigado! Feliz Natal!"
"Obrigada, feliz Natal também! Boas festas!"

   Desliguei o telefone com um sorriso natalino no rosto, aquele sorriso meio bobo de boas festas que você ostenta após esse tipo de cordialidade. Pensei "Puxa, que moça simpática!" e tornei para arrumar o quarto. Minutos depois, o estalo:

   O cartão tá cancelado, o maldito cartão tá cancelado, o que inclui o minicard. Caralho, caralho! Como eu sou idiota! Como é que eu vou comprar os presentes de Natal? Como? Hm... posso sacar dinheiro ou, se comprar online, boleto bancário. Demora um monte e é uma provação de paciência mas vale a pena... ufa. E como em lojas virtuais os descontos compensam um monte, saindo mais barato que em lojas físicas e com frete grátis em todo lugar, compensa muito mais. Preguiça de encarar lojas cheias na semana antes do Natal. E o cinema? Meu deus! O cinema! O que eu faço com o cinema? Vou ter que sacar o dinheiro, de qualquer maneira, não tem jeito.

   Aí, notei como eu sou cretino e ansioso. Poderia ter esperado mais três dias para cancelar o cartão, comprar o que eu tinha para comprar e ver meus filmes mas não. Liguei, cancelei e me fodi.

   Agora, cartão de crédito só em sete dias úteis.

20071109

"Planeta Terror"

   Acabei de voltar de uma sessão de Planeta Terror.

   Não sei bem o que dizer ainda. Saí do cinema com uma impressão desagradável, de filmete medíocre. Honestamente, os filmes do Robert Rodriguez geralmente me deixam com essa impressão. Sin City eu achei uma bobagem, muito quadrinho e pouco cinema. E analisando agora, Planeta Terror sofre de um mesmo mal: O estilo se sobrepõe ao conteúdo. Em Sin City, o estilo incrivelmente fiel aos quadrinhos foi seu único mérito e seu grande defeito. Quadrinhos não são cinema e vice-versa. Cada mídia tem suas características próprias e a narrativa de uma nem sempre se encaixa exatamente na outra. Em Planeta Terror isso não precisaria ser um problema uma vez que é um filme que homenageia tantos outros, ou seja, tá tudo já meio que pronto.

   Mas Robert Rodriguez conseguiu inclusive diminuir o gênero em algo raso e pouco interessante. Quando li uma primeira crítica do filme, citaram A Noite dos Mortos Vivos. Citaram que Planeta Terror não vai além disso e etc. O que prova ser uma besteira gigantesca. O filme sequer se aproxima do filme do Romero. Novamente, o estilo se sobrepôs ao conteúdo: Houve tamanha preocupação com como os filmes pareciam naquela época, como eram os enquadramentos e os travellings, as cores, a sujeira na película, as falhas aqui e ali, a música, enfim, tudo o que caracterizaria um filme mais do tipo B que o filme em si soa menos interessante. O problema é que toda a estética adotada funciona, e funciona muito bem, nos primeiros minutos de filme. É divertido ver as manchas aqui e ali, o trailer falso em som tipo Mono exibido antes do filme, os movimentos desnecessários, as atuações excessivas de alguns coadjuvantes, o gore e sangue extremamente falsos e muito divertidos. Porém, passados esses minutos iniciais, a novidade acaba, para nós. Mas não para Robert Rodriguez. Para Robert Rodriguez isso nunca é demais. E o filme se encerra nisso.

   Daí, com exceção disso, tudo fica meio assim, com clima de displicência, pouco caso mesmo. O ritmo do filme é irregular e o mais assustador do filme foi o fato de eu ter notado que em muitos momentos eu estava entediado no cinema. Durante um filme de zumbis e ação. Considerando como eu aprecio filmes de zumbis - tanto os lentos como os rápidos - e como eu esperava por esse filme, achei estranho.

   Pomba, até meu desktop tá com o papel de parede do Planeta Terror:

Eu, muito feliz, aguardando a estréia do Planeta Terror.


   Daí entra aquela questão: "Oras, você estava ansioso, com expectativas em alta e elas não foram supridas, acontece". O problema é que minha única expectativa era me divertir e ver sangue falso e algumas explosões na tela. Por esse lado, realmente, foi tudo ok mas o problema do filme é esse ritmo irregular, mesmo. E como lida com muitos personagens o tempo todo, sem nenhuma profundidade ou sutilezas, você freqüentemente se pergunta por que diabos eles cortou a história ali e mudou para o outro personagem ou coisa do gênero. Ironicamente, essa cartilha de corte + corte + corte = filme dinâmico não funcionou, e o filme dependia muito disso. Aí a história parece estar sempre perdendo o foco, o que o faz perder o foco, por conseqüência.

   Apesar de tudo, o filme não é uma merda. É um médio-bom, no máximo. Não acho que o filme recrie os filmes dos gêneros apresentados com tanta fidelidade mas sequer consegue encontrar sua própria voz. Um colega me disse que "O filme não quer ensinar nada, só quer divertir e para isso, ele o faz com louvor". Não esperava lições de vida em um filme chamado Planeta Terror nem acho que um filme precisa ensinar algo para ter algum valor. A mensagem do filme é clara e pouco aproveitada, eu acredito. Vale a pena por algumas seqüências muito boas e muito divertidas mas a impressão geral não é tão divertida. Com Kill Bill Vol. 1, que também se propõe a divertir somente, eu saí do cinema andando nas nuvens. Repeti a dose no cinema, na época tinha o filme gravado em um porco VCD (Duplo!) e atualmente o possuo em DVD. E continuo achando extremamente divertido e sensacional. Não sei se com o passar do tempo eu vou acabar gostando mais de Planeta Terror. No cinema não pretendo rever, certamente. Um lançamento em DVD ganha minha locação, já. Pode ser que no televisor tudo pareça mais interessante, quem sabe?

   Agora é só aguardar o lançamento de À Prova de Morte, do Tarantino que todo mundo que já viu, crítico de cinema ou não, diz que é melhor e etc. Eu aguardava com mais interesse para assistir ao Planeta Terror, por causa do tema tão apetitoso ainda que sempre tive meus problemas com o Rodriguez. No momento, em questão de expectativas, eu diria que há um empate.