Li hoje um artigo sobre Perfeccionismo que saiu na SuperInteressante desse mês. SuperInteressante, etc, etc, eu sei. Gosto da revista, é como aquele livro, O Guia dos Curiosos. Só não costumo apreciar muito as matérias de capa (Que provavelmente é um dos motivos pelos quais você compra a revista ou resolve abri-la) simplesmente porque elas, quase sempre, me parecem redundantes ou uma enrolação. Como um filme que você entende nos primeiros vinte minutos e o filme continua fazendo mistério sobre justamente aquilo. Você pensa "Ok, já entendi. E agora?" mas ele continua ali, no mistério dos vinte minutos até o minuto final. Contudo, essa matéria sobre Perfeccionismo era realmente curta e apesar de que eu apreciaria mais uma ou duas páginas de aprofundamento do assunto, prefiro manter como está a correr o risco de ter uma matéria longa e sem argumentos.
A parte curiosa é que fala sobre sintomas de perfeccionismo e eu me vi em muitos deles. Não tenho certeza se é só mais um desses artigos em que você sempre se identifica — como o que dizem de horóscopo, sempre um tanto vago e abrangente — ou o quê. Me preocupei de cara. Só achei que podia não ser esse monstro uma vez que o perfeccionismo se expande em todas as áreas da sua vida e, honestamente, sou dedicado aos meus trabalhos e atividades porém, meu quarto, por exemplo, é uma bagunça. Mantenho meus DVDs organizados mas sem neuroses. Antigamente os deixava em ordem alfabética. Com o crescente números de filmes, não tinha bem um porquê já que eles não ficariam organizados, seria algo mais próximo de amontoados. E tudo bem.
E você pensa no Woody Allen, sempre neurótico. E você olha e vê que as pessoas costumam ser neuróticas, cada qual com os seus focos de preocupação. Penso que vivo no limite do perfeccionismo, sem exageros porque o que me dificulta mesmo a vida é um reflexo direto do meu quarto. Falta de organização. Estou lendo e investindo tempo para aprender a me organizar, de verdade. Coisa de hábito, dizem. E é uma bela verdade. Preciso de uma agenda nova. Estou reutilizando a do ano passado, que de fato é 2007/2008 mas eu sou um pouco expansivo e minhas anotações de 2007 não me deixaram espaço para 2008. Outro dia anotei um compromisso e tudo bem. Tudo bem até eu chegar na véspera do compromisso e, quando vou olhar na agenda, para fazer uma outra anotação, o dia do compromisso tá em branco. E o dia antes e o dia depois. Senti o horror tomar conta de mim. Suei frio, não sabia o que fazer. Corri para páginas depois e nada. Voltei algumas e nada.
O que minutos desesperadores depois notei é que eu tinha anotado o tal evento pelo menos duas semanas antes dele acontecer. E não porque agendei com duas semanas de antecedência mas porque eu simplesmente não tenho a menor afinidade com meses, semanas, dias, horas ou minutos. Não consigo simplesmente entendê-los da maneira mais abstrata o possível. Entendo-os como convenção social ou coisa do tipo. É que, pessoalmente, o tempo corre de uma forma diferente, ora mais rápido, ora mais lento, mas sempre em um tempo só, para mim. Em um paralelo um pouco bobo é como se o mundo todo fosse gravado em vídeo NTSC, a trinta quadros por segundo. E eu vivesse no tempo da película; eu vivo a vinte-e-quatro quadros por segundo.
No fundo, refletindo sobre a minha desorganização e todo o resto, percebi que a minha neurose com o perfeccionismo é, provavelmente, mais um sintoma hipocondríaco do que qualquer outra coisa.
E hipocondria é fichinha!
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20080223
20080127
Grafia
Esqueci de citar no outro post mas considero isso realmente útil porque quando eu pesquisei me deparei com esse site que me ajudou muito então vale um post novo.
Portfolio, portifólio e portfólio… qual a grafia correta?
Basicamente tira aquela dúvida sobre a maneira correta de se referir ao seu conjunto de trabalhos.
Daí só depende de você não deixar a impressão do recheio para a última hora.
Portfolio, portifólio e portfólio… qual a grafia correta?
Basicamente tira aquela dúvida sobre a maneira correta de se referir ao seu conjunto de trabalhos.
Daí só depende de você não deixar a impressão do recheio para a última hora.
20071206
Matemática
Pegue uma edição muito interessante de cinco discos do filme Blade Runner.

Traga para o Brasil.
Daí, fica assim:

Posso até ouvir o diálogo na Warner:
Só para relembrar, lá fora há a edição com dois, quatro e cinco discos. A última é a que vem na maleta. Aqui, há apenas uma edição tripla. Aparentemente, tirando o número de discos (E a foto de divulgação mais magra), não perdemos nada de brinde:
Ah, claro. Lá fora também tem uma carta do Sir Ridley Scott mas, para isso eu estou cagando. O que me incomoda é ter um edição recapeada sem os benditos extras que estão nos dois discos que faltam. O que seria realmente um motivo interessante para comprar essa maleta. Mas a Warner, sempre competente e ligada no mercado coloca a mesmíssima edição tripla por 60r$ no mercado contra os 300r$ cobrados pela maleta, um unicórnio de Origami, um carrinho de plástico e meia dúzia de fotografias.
A parte boa é que como essa edição fresca vai atolar no mercado, ano que vem vai dar pra encontrar por um precinho camarada por aí. Ou ainda aguardar a edição de cinco discos ser lançada. Ou importar a edição de cinco discos norte-americana.
Pomba, o disco quatro é cheio de "featurettes" e o quinto tem aquela "Workprint Version", a versão "Radicalmente diferente". Enfim, lançarão uma Edição Especial Definitiva sem dois discos, incluindo outra versão do filme. Não parece muito definitivo pra mim.
Vai ver não colocaram porque não souberam como traduzir "Workprint Version"
Traga para o Brasil.
Daí, fica assim:

Posso até ouvir o diálogo na Warner:
Pessoa 1: "Ah, mas pra que tantos discos?! Vamos colocar em três só!"
Pessoa 2: "É, fica mais bonito ó: Um disco vermelho, um amarelo e um azul. Não entendo ter um disco verde e um roxo!"
Pessoa 1: "Cara... São as cores primárias! Nada ver botar o verde e o roxo. Sabe... Elas são secundárias!"
Pessoa 2: "Faz todo o sentido! Bora lançar essa edição tripla!"
Só para relembrar, lá fora há a edição com dois, quatro e cinco discos. A última é a que vem na maleta. Aqui, há apenas uma edição tripla. Aparentemente, tirando o número de discos (E a foto de divulgação mais magra), não perdemos nada de brinde:
DVD Triplo + Maleta Exclusiva
Contém:
- Imagem holográfica do filme
- Coleção de imagens do filme
- Carro (spinner car)
- Unicórnio
Ah, claro. Lá fora também tem uma carta do Sir Ridley Scott mas, para isso eu estou cagando. O que me incomoda é ter um edição recapeada sem os benditos extras que estão nos dois discos que faltam. O que seria realmente um motivo interessante para comprar essa maleta. Mas a Warner, sempre competente e ligada no mercado coloca a mesmíssima edição tripla por 60r$ no mercado contra os 300r$ cobrados pela maleta, um unicórnio de Origami, um carrinho de plástico e meia dúzia de fotografias.
A parte boa é que como essa edição fresca vai atolar no mercado, ano que vem vai dar pra encontrar por um precinho camarada por aí. Ou ainda aguardar a edição de cinco discos ser lançada. Ou importar a edição de cinco discos norte-americana.
Pomba, o disco quatro é cheio de "featurettes" e o quinto tem aquela "Workprint Version", a versão "Radicalmente diferente". Enfim, lançarão uma Edição Especial Definitiva sem dois discos, incluindo outra versão do filme. Não parece muito definitivo pra mim.
Vai ver não colocaram porque não souberam como traduzir "Workprint Version"
Pessoa 1: "V-V-Vo-Vorquiprinte Verssom? Ixi... Corta, corta."
20070903
Blade Runner - The Final Cut
Exibido pelo Ridley Scott no sábado, durante o 64º Festival Internacional de Veneza, mais uma montagem do filme Blade Runner que, de acordo com o diretor, "esse sim é 'Blade Runner' como eu o havia imaginado".
Por um lado, acho a atitude interessante. Afinal, a obra é dele, e ele a manipula como quiser. Se você não gostar, ignore-a ou faça você mesmo um novo "Blade Runner", oras. Por outro, não gosto tanto dessas alterações de obras consagradas, atualizações de toda forma. Aprecio restaurações, definitivamente. Isso deveria acontecer até com maior freqüência, para preservar as obras. Mas essas alterações acabam, pra mim, rompendo com a beleza errada de um filme de um diretor inexperiente, um filme que simplesmente simboliza aquele período da vida dele e do mundo, de forma geral.
Na realidade, isso dificilmente se caracterizaria um problema, uma vez que considero o primeiro lado, acima de tudo. Porém, o caso de "Blade Runner" retringe a propriedade intelectual da versão original uma vez que, após o lançado da "Versão do Diretor" em 1992, a versão original (Existem duas: A "Versão de Cinema" e a "Versão Internacional") tornou-se rara. Aliás, quase que impossível. Fitas VHS antigas, que você encontra por aí geralmente já são da versão do diretor. Os DVDs, o mesmo problema. Consegui ver a "Versão de Cinema" apenas após baixar o filme em Divx, apenas. A "Versão Internacional", se é que há tanta diferença assim, nunca vi. Com isso, a sensação que fica é que o Ridley Scott não apenas faz alterações da sua obra mas nega o passado dela, o que é um erro tremendo.
O problema todo, dizem, é que como em 1982 ele estourou o orçamento do filme, editaram "Blade Runner" sem a participação do Ridley Scott. Em 1992, para redimir o problema, Ridley Scott lançaria a dita "Versão do Diretor", contudo, novamente disse que o apressaram, etc, etc, etc, não foi dessa vez. Essa "Montagem Final" começou a ser feita em 2000 e não foi lançada antes por problemas judiciais até que, ano passado, foi relançada a "Versão do Diretor" em DVD - naquela caixa vermelha bacanuda e agora, no aniversário de 25 anos da versão original, essa "Final Cut" "será projetada em salas de Nova York e de Los Angeles em 5 de outubro, e depois será distribuído em todo os Estados Unidos a partir de 18 de dezembro".
Essa distribuição a partir de dezembro será através de DVD (E nas recentes HD-DVD e Blue-Ray) e é aqui que a coisa fica interessante. Haverá uma versão dupla da "Final Cut":
Uma versão quádrupla com todas as versões existentes incluindo a "Final Cut":
E por fim, uma edição ultra especial com cinco discos e um monte de frescuras como um unicórnio em Origami, um documentário de três horas e meia, fotografias e etc, além de um outra versão ainda, a "Versão Workprint", que dizem ser a "mais radicalmente diferente" - a conferir:
Ficam as dúvidas em relação ao lançamento disso aqui no Brasil. Acho improvável - mas não impossível - o lançamento nos cinemas daqui, nem que seja em um ou dois. E o lançamento em DVD, honestamente, adoraria ver a versão da maleta e cinco discos mas acho mais provável a edição de quatro discos ou mesmo a de cinco discos em caixa, enfim. A Warner, aqui no Brasil, não tem sido muito generosa. Por exemplo, vende os filmes do Kubrick, daquela coleção de caixas brancas, ultimamente a um preço consideravelmente baixo o que indica que poderiam lançar as edições duplas e especiais de alguns desses filmes ("2001 - Uma Odisséia no Espaço", "Laranja Mecânica" e "O Iluminado" já são possíveis de comprar em pré-venda, com lançamento em outubro, lá fora) mas não há nenhum anúncio do tipo, por aqui. Freqüentemente esse tipo de coisa simplesmente não chega aqui ou chega com limitações.
Lá, nos Estados Unidos, duas edições especiais de "O Mágico de Oz" foram lançadas. A dupla e a tripla. A diferença ficava no tipo de embalagem, mais extras na edição tripla além de bobices como 9 fotos, uma reprodução do ingresso da estréia do filme, um livreto, esse tipo de coisa que todos adoramos. Aqui no Brasil só foi lançada a edição tripla, que apesar de parecer limitante, é compreensível, pelo menos lançaram a melhor versão. Os extras, nos discos, todos intactos e legendados, o que é ainda pouco usual, aliás. Porém, das nove fotos, apenas cinco figuram na embalagem tupiniquim, e só. Nada de livreto ou ingresso. Ainda assim, considero um lançamento de extrema qualidade, considerando o mercado brasileiro de DVDs, de maneira geral e da minha coleção pessoal, é dos que tenho mais orgulho.

De volta ao "Blade Runner", mesmo que vier sem os extras físicos - unicórnio de origami, fotografias e etc - já ficaria extremamente feliz de um lançamento competente, e legendado, do filme, com os cinco discos. O legal seria a um preço acessível, afinal, lá está sendo vendido a US$55. Claro, nesse aspecto já não tenho nenhuma esperança mas em relação a uma edição decente, por que não?
20070724
Nem de graça.
Meu pai aniversariará na próxima sexta-feira e, para celebrar, levará a família para assistir ao novo Harry Potter no cinema. Meu pai e minha irmã são, definitivamente, fãs do rapaz e eu, bem, não. Tanto que vi o primeiro e o segundo filmes inteiros, pedaços do terceiro na HBO e do quarto eu não faço idéia do que acontece. Os livros eu adiei por esses anos com a desculpa de que eu sou ansioso demais e que só leria um Harry Potter quando a saga toda estivesse completa o que é ou não uma mentira deslavada que só o tempo provará. Fato é, eu não iria ao cinema assistir ao quinto Harry Potter sem ter assistido os dois anteriores, por razões óbvias. Além do que, novos personagens podem ter surgido e sendo assim, eu tornaria-me o chato do cinema que vez ou outra levanta a questão "Quem é esse? Ele é amigo ou inimigo? Quais os poderes dele?" ou coisa assim. Para tanto, esta tarde, fui à locadora para locar os dois filmes.
Chovia. Chovia muito. Cheguei à locadora, que estava com metade coberta com um plástico preto, pois está em reforma e com os pés molhados dirige-me ao balcão onde uma moça de cabelos loiros (falsos), que já provara suas habilidades e discernimentos de atendente de videolocadora outras vezes, estava, junto a um computador.
- Oi, eu preciso de três filmes.
- Sim, pois não?
- Eu preciso do terceiro e do quarto filmes do Harry Potter...
- ...
- ... É que é aniversário do meu pai na sexta-feira e ele vai levar todo mundo pra ver o novo filme então, eu achei que precisava recuperar o tempo perdido.
- Ah sim. E qual o outro?
- "Últimos Dias".
- Mas que filme é esse "Últimos Dias" que tá todo mundo pedindo??
- Sabe o filme "Elefante"?
- ...
- Aquele que na capa tem uma moça dando um beijo num rapaz de cabelos bem louros e camiseta amarela, sabe?
- Ah tá. Sei.
- Então! É do mesmo diretor!
- Ah tá. É um documentário, então.
- Não... Nesse "Últimos Dias", o diretor, o Gus Van Sant, conta a história de um rockstar famoso que parece que é baseado na história do Kurt Cobain, do Nirvana e bem, aparentemente ele isolou-se nesse lugar e está vivendo seus... últimos dias.
- ... Ah tá. Um documentário, saquei. Então, você quer o Harry Potter: O Prisioneiro de Azkaban e o Cálice Sagrado, isso?
- Hm. Acho que sim.
- Tá.
E ela saiu de trás do balcão e foi andando pelas prateleiras. Deus sabe o porquê eu fui atrás. Acho que como eu não tinha engolido a história de documentário eu queria respostas. Ela virou ao lado do saco preto de reformas e enquanto ela dirigia-se para a prateleira onde estavam os filmes, eu parei, maravilhado. Um tesouro, daqueles. Dezenas, talvez centenas de filmes em VHS, mal empilhados, em um canto. De súbito, falei:
- Ei! O que são esses filmes? Porque eles estão aqui?
- São pra doação - falou um rapaz que estava junto aos filmes.
Eram pra doação. Pra um orfanato não sei o quê ou asilo blábláblá, não sei, juro que não conseguia ouvir.
- Se você quiser dar uma olhada antes que a gente leve, pode ver quais você quer e pegar. São pra doação mesmo!
Coloquei-me ajoelhado junto a uma pilha de filmes e comecei a ver, um a um.
- Mesmo?
- Claro!
A próxima coisa que percebi foi uma pilha de filmes que batia no meu peito e ainda faltava um pouco menos da metade dos filmes para inspecionar. No final das contas, peguei 45 filmes. Eles deixaram um para trás que estava separado, então, 46. Quarenta e seis filmes semi-novos em folha. Quarenta e seis!


Muitos filmes ruins, ruins. Muitos filmes ruins, bons. Alguns bons, mesmo. Peguei de tudo.

Notei outro vício de linguagem que muitos de nós temos e eu não era exceção. Sabe aqueles filmes que vocês diz que "Não quer ver nem de graça" ou em casos menos sérios, "Não pagaria pra ver mas assistiria de graça"? Pois bem, a primeira regra não vi exceções. Mas na segunda, diversos filmes eu pegava, olhava e então, como estava de graça, classificava como "Nem de graça". Juro que foi bastante esclarecedor.

Dentre tantos filmes bacanas, destacarei alguns dignos de menção.

Vimos Os Suspeitos à venda, até em bancas promocionais de DVDs de 9,90, o que já era excelente. Aqui, em VHS, a caixa está um pouco danificada mas a fita, intacta!

O pomo da discórdia, dublado.

Uma incrível surpresa.

E outra, tão incrível quanto.

Um filme que é sempre bom ter em mãos, não é mesmo?

Ah, e é claro! Navalha na Carne e sua excelente (quase sensual) capa.
A parte triste é que alguns filmes estavam sem caixa e outros estavam sob uma goteira. Muitos mereciam estar assim mas outros, não. Assim sendo, salvei quatro:

("Assassinato no Expresso Oriente"; "Os Deuses Devem Estar Loucos II"; "Batman - O Retorno" e; "Era Uma Vez no México".)
E bem, hoje entendi como uma criança se sentiria numa fábrica de doces (o mesmo exemplo pode ser aplicado a Gordos e Presuntos) o que, devo dizer, foi incrível. Eu estava não apenas com os pés molhados mas metade das pernas também por causa do guarda-chuva e só fui notar isso novamente quando cheguei em casa. Outra analogia que me vem à cabeça e que cabe é aquele programa Supermarket, no qual as pessoas tinham que encher seus carrinhos com MILHO PARA PIPOCA YOKI ou CANELA EM PÓ PARA DOCES MESTRE CUCA ou seja lá o que o apresentador dizia-os para procurar. Mas um pouco mais livre e tudo.
Enfim, só mais uma fotografia. In memoriam ao pessoal do orfanato de velhinhos.
Chovia. Chovia muito. Cheguei à locadora, que estava com metade coberta com um plástico preto, pois está em reforma e com os pés molhados dirige-me ao balcão onde uma moça de cabelos loiros (falsos), que já provara suas habilidades e discernimentos de atendente de videolocadora outras vezes, estava, junto a um computador.
- Oi, eu preciso de três filmes.
- Sim, pois não?
- Eu preciso do terceiro e do quarto filmes do Harry Potter...
- ...
- ... É que é aniversário do meu pai na sexta-feira e ele vai levar todo mundo pra ver o novo filme então, eu achei que precisava recuperar o tempo perdido.
- Ah sim. E qual o outro?
- "Últimos Dias".
- Mas que filme é esse "Últimos Dias" que tá todo mundo pedindo??
- Sabe o filme "Elefante"?
- ...
- Aquele que na capa tem uma moça dando um beijo num rapaz de cabelos bem louros e camiseta amarela, sabe?
- Ah tá. Sei.
- Então! É do mesmo diretor!
- Ah tá. É um documentário, então.
- Não... Nesse "Últimos Dias", o diretor, o Gus Van Sant, conta a história de um rockstar famoso que parece que é baseado na história do Kurt Cobain, do Nirvana e bem, aparentemente ele isolou-se nesse lugar e está vivendo seus... últimos dias.
- ... Ah tá. Um documentário, saquei. Então, você quer o Harry Potter: O Prisioneiro de Azkaban e o Cálice Sagrado, isso?
- Hm. Acho que sim.
- Tá.
E ela saiu de trás do balcão e foi andando pelas prateleiras. Deus sabe o porquê eu fui atrás. Acho que como eu não tinha engolido a história de documentário eu queria respostas. Ela virou ao lado do saco preto de reformas e enquanto ela dirigia-se para a prateleira onde estavam os filmes, eu parei, maravilhado. Um tesouro, daqueles. Dezenas, talvez centenas de filmes em VHS, mal empilhados, em um canto. De súbito, falei:
- Ei! O que são esses filmes? Porque eles estão aqui?
- São pra doação - falou um rapaz que estava junto aos filmes.
Eram pra doação. Pra um orfanato não sei o quê ou asilo blábláblá, não sei, juro que não conseguia ouvir.
- Se você quiser dar uma olhada antes que a gente leve, pode ver quais você quer e pegar. São pra doação mesmo!
Coloquei-me ajoelhado junto a uma pilha de filmes e comecei a ver, um a um.
- Mesmo?
- Claro!
A próxima coisa que percebi foi uma pilha de filmes que batia no meu peito e ainda faltava um pouco menos da metade dos filmes para inspecionar. No final das contas, peguei 45 filmes. Eles deixaram um para trás que estava separado, então, 46. Quarenta e seis filmes semi-novos em folha. Quarenta e seis!
Muitos filmes ruins, ruins. Muitos filmes ruins, bons. Alguns bons, mesmo. Peguei de tudo.
Notei outro vício de linguagem que muitos de nós temos e eu não era exceção. Sabe aqueles filmes que vocês diz que "Não quer ver nem de graça" ou em casos menos sérios, "Não pagaria pra ver mas assistiria de graça"? Pois bem, a primeira regra não vi exceções. Mas na segunda, diversos filmes eu pegava, olhava e então, como estava de graça, classificava como "Nem de graça". Juro que foi bastante esclarecedor.
Dentre tantos filmes bacanas, destacarei alguns dignos de menção.
Vimos Os Suspeitos à venda, até em bancas promocionais de DVDs de 9,90, o que já era excelente. Aqui, em VHS, a caixa está um pouco danificada mas a fita, intacta!
O pomo da discórdia, dublado.
Uma incrível surpresa.
E outra, tão incrível quanto.
Um filme que é sempre bom ter em mãos, não é mesmo?
Ah, e é claro! Navalha na Carne e sua excelente (quase sensual) capa.
A parte triste é que alguns filmes estavam sem caixa e outros estavam sob uma goteira. Muitos mereciam estar assim mas outros, não. Assim sendo, salvei quatro:
("Assassinato no Expresso Oriente"; "Os Deuses Devem Estar Loucos II"; "Batman - O Retorno" e; "Era Uma Vez no México".)
E bem, hoje entendi como uma criança se sentiria numa fábrica de doces (o mesmo exemplo pode ser aplicado a Gordos e Presuntos) o que, devo dizer, foi incrível. Eu estava não apenas com os pés molhados mas metade das pernas também por causa do guarda-chuva e só fui notar isso novamente quando cheguei em casa. Outra analogia que me vem à cabeça e que cabe é aquele programa Supermarket, no qual as pessoas tinham que encher seus carrinhos com MILHO PARA PIPOCA YOKI ou CANELA EM PÓ PARA DOCES MESTRE CUCA ou seja lá o que o apresentador dizia-os para procurar. Mas um pouco mais livre e tudo.
Enfim, só mais uma fotografia. In memoriam ao pessoal do orfanato de velhinhos.
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