20100725

Novidades n'O Pinball Mutante

   O Pinball Mutante agora está de casa nova!

   E eu tenho um domínio para chamar de meu! A partir de agora, você pode (in fact, deve) acessar através de pinball.semtitulo.org. Economiza-se só uns dois caracteres, mas é melhor: agora é só "pinball" e não "pinballm". Cai o blogspot.com e fica o semtitulo.org. Facilita, centraliza tudo, fica tudo mais simples!

   Então, fica dica: atualize seus favoritos e seus feeds RSS (if any!) porque sabe-se lá até quando fica valendo o endereço antigo.

   Ah! E em breve o semtitulo.org fica integralmente no ar. Por hora, está em construção.



   Não prometo que vai ter texto novo aqui em breve porque não é assim que as coisas acontecem.

   E você já sabe bem disso.

20100308

Re: Acidentes

      São Paulo, 08 de março de 2004.

      Li um texto publicado na edição de Janeiro chamado "Acidentes" e gostaria de dividir algumas palavras com vocês porque finalmente entendi de certa forma do que se trata.
      Eu fiquei bastante intrigado com essas linhas e até esta manhã eu não sabia bem o que pensar. Talvez seja verdade, o autor tenha alguma razão em suas palavras.
      Estava no ponto de ônibus esperando o meu transporte chegar. Estava amanhecendo. Apesar de já estar bastante claro, era possível perceber alguns raios de sol amarelados que cortavam o ar, entre as folhas e saindo de algumas nuvens. Um dia bastante bonito. Subitamente, aconteceu. É difícil expressar a euforia que sinto em relação a isso e é provavelmente impossível dividir isso com alguém, mas preciso tentar. Não foi um atropelamento entre automóvel e gente, mas entre gente e bicicleta. Não houve vítimas fatais, ninguém sequer se feriu de maneira grave. Mas mesmo em evento tão menor, a energia gerada foi tão impressionante e tão... Delicada. Quase invisível aos olhos. Os fatos vocês já sabem, vou tentar descrever o que pude observar além do óbvio.
      Um rapaz atravessava na faixa de pedestres, todos os carros estavam parados no semáforo. Ele atravessava e a um metro, talvez um metro e meio da calçada, pareceu-me que ele parou. Uma bicicleta passou e passou por nós. Não sei dizer bem o que aconteceu, no entanto é a parte mais bonita de todas. Parece que eu o percebi parar, mas provavelmente isso não aconteceu, a primeira bicicleta tinha passado com alguma folga pela rapaz. O que aconteceu foi um efeito similar a uma explosão atômica. Como se todo o ar e os sons e a luz do sol e os olhares de todos os presentes fossem subitamente sugados para aquele ponto em um instante muito rápido, como se estivesse armazenando energia para o choque que veio em seguida. Uma segunda bicicleta veio de encontro ao garoto. Digo desse momento de concentração de energia porque tudo foi para aquele ponto e deve ser loucura, mas acredito que todos viram o que vi, como eu vi. Não sei se perceberam da mesma maneira que eu, mas sinto que todos prenderam a respiração ao mesmo tempo. Um garoto com os olhos estatelados aparentemente colados ao chão. Uma bicicleta em alta velocidade colidindo com ele, liberando uma explosão estática, reconstruindo o ar para todos nós, num único espasmo violento como uma forte onda seguida por outras menores, mais rápidas, de intensidade decrescente. Aquela onda de energia devolvendo a todos nós luz, ar, poesia, sons e eletricidade, fazendo todos tremer em excitação, medo, humanidade e silêncio. Uma oxidação instantânea, manchando e corroendo duas pessoas, sendo exposta e expandindo-se para todos que ali estavam começando um novo dia. O rapaz da bicicleta foi lançado sobre o guidão e além. O garoto que atravessava sendo bruscamente lançado ao chão, sobre a sarjeta. O instante de poesia então estava terminando.
      Findo o momento da poesia, essa coisa (a melhor associação que faço, que li de outros autores, é o "it" que Clarice Lispector descreveu) esse instante-coisa, absoluto, nem passado nem futuro, inatingível e impossível de se nomear porque não é, além do que foi, mas sequer sabemos com certeza se foi. É "it". E assim que começou e terminou, inconsciente para a maior parte de nós (e não sei se pude percebê-lo por completo, mas fiquei comovido por tê-lo percebido o tanto que pude), tudo voltou ao normal, ao cotidiano. E o que mais me impressionou é que foi um instante-coisa poesia talvez de menor intensidade, mas tão igualmente bonito como imaginei que seria.
      Algumas pessoas correram em direção ao epicentro. Só fiquei tocado mesmo porque o primeiro som, o primeiro som que se tornou audível mais uma vez foi um grito estridente, agudo, desesperado, cheio de dor. Era a mãe do garoto que atravessava. Após as primeiras pessoas que se aproximaram, veio essa mulher, atravessando as duas largas pistas para três carros, cada, que compunham a avenida, correndo às cegas, arriscando a própria vida, com lágrimas nos olhos. Ela se aproximou, o garoto segurava o braço. O outro, da bicicleta, parecia confuso. Ambos eram bastante jovens. O primeiro mais. Mas ambos tinham uma expressão de choro no rosto. Um movido pela dor, outro pelo amor. No fundo, ambos movidos pelo que restou da poesia. Como os últimos versos da última estrofe, melancólicos e enigmáticos. Ambos não sabiam, mas tinham feito poesia, tinham se tornado humanos por um instante. E isso lhes doía muito.
      Todos nós ali experimentamos ser humanos com eles, em menor intensidade. Fomos atingidos pelo instante-coisa que eles criaram ali. Fomos agraciados por isso em uma manhã de sol, que parecia ser como toda manhã, de uma segunda-feira como toda segunda. Alguns receberam com maior intensidade, outros com menor. Não posso responder por todos ali, mas sei que dali eu saí com um misto de felicidade e dor, porque presenciei poesia. E pra poesia, entendi como isso: um grande conflito que numa descarga de insanidade nos torna humanos para em seguida, mais uma vez sãos. Sendo assim, compartilho isto com vocês e digo:
      Obrigado.

      Um abraço!


      Gregor.

20100225

A sense of struggle

      Há uma sensação que é difícil definir e não sei se todos os seres humanos conseguem percebê-la ou mesmo controlá-la. Não acho que seja controlável ou passível de antever que isso vai acontecer. É um sentimento de nada, de crise pessoal e profissional. Uma nada errado, de passos em falso e de incompetência. Acredito que todos nós passemos por isso, em pelo menos um momento de nossas vidas e se não são esses pequenos incidentes pessoais que ajudam a construir nosso caráter e nossa visão de mundo, eles ao menos são suficientes para causar alguma auto-reflexão para seguir em frente ou desistir de uma única vez, porque o nada gera algo, uma sensação. Outro dia, encontrei nos olhos de Clarice essa sensação. Clarice sempre fora uma grande amiga minha, até onde posso me lembrar. Sempre tivemos uma relação extremamente espontânea e natural, assim como foi natural nossa aproximação e amizade. Ela sempre tivera uma personalidade incrível, intensa, sincera e carinhosa. Mas de vez em quando ela passava por esses momentos de ligeira depressão. Durava um dia ou uma semana. Era súbito. Aos olhos estranhos, com certeza Clarice parecia apenas uma mulher desesperada por atenção. Eu sabia que não era o caso, mas não sabia bem como e se eu podia ajudá-la.
      Se outras vezes isso já tinha acontecido, por que me importar com essa sensação nos olhos de Clarice desta última vez? O fato é: sempre me importa, sempre me importou e sempre senti a minha fragilidade refletida na dela e além de uma identificação com o problema em si, não poderia simplesmente subjugar Clarice especialmente em um momento tão próprio e delicado. Se por si isso já me era suficiente, neste dia me pareceu infinitamente mais forte, triste, desolado e inevitável. Mas o que alguém pode fazer por outra pessoa uma vez que cada pessoa só é responsável pela própria felicidade e vida? Eu poderia dizer muitas palavras bonitas, bem colocadas. Mas se aprendi algo em dadas circunstâncias seria que neste momento, quando se trata realmente disso e é sincero, são necessários sinceridade e honestidade plausíveis. Nada de eufemismos ou elogios excessivos. No final das contas, pra mim, esta sinceridade é a única coisa que as pessoas devem umas às outras em qualquer situação.
      Abordei Clarice, gentilmente. Ela estava em um furacão de pensamentos confusos, percebia uma tempestade através de seus olhos. A perguntei o que havia. Ela subiu seus olhos avermelhados e tristemente respondeu um curto "nada" e voltou a atenção para o monitor em que ela trabalhava. Pego uma cadeira e me sento ao seu lado.
      "Mesmo?", questiono.
      "Sim, claro. Por que a pergunta?" Clarice me questiona de volta, com alguma agressividade defensiva natural.
      "Ah... Você parece chateada, triste. Está quieta e não sei... Diferente." respondo enquanto tocava seu ombro.
      "As pessoas não são sempre iguais, todos os dias" ela comenta com a mesma dureza anterior, desvencilhando-se de minha mão.
      Fiquei calado por alguns instantes, ao seu lado. Eu estaria sempre ao seu lado, independente de um momento de grosseria ou atitude pouco pensada. Ela sabia disso. E os poucos minutos que passei ali ao seu lado parece que foram suficientes para que ela percebesse isto porque foi Clarice quem me abordou, então.
      "Olha, Gregor..." ela fez uma pausa e continuou em seguida "Desculpe por ter sido grossa contigo é que tá foda".
      "Não se preocupe, Cla... Mas me diga, o que houve?"
      Ela continuou encarando o monitor por algum tempo. Então, como se tivesse se enchido daquilo também, se virou pra mim e falou:
      "Hoje acordei meio deprimida, não sei. Me sinto em uma crise de algum tipo. Na real mesmo, não é nem de hoje. É como se fosse um processo que explodiu agora."
      "E sabe de onde isso veio?"
      "Não sei, nem ideia."
      Calamos os dois. Nossos olhares se cruzavam a três metros de nós, encaravam o nada. Senti uma tremenda angústia como se de fato dividisse a dor de Clarice. Mas eu não dividia. Eu dividia o nada. O nada que é invísivel e material. Quando tudo lhe é arrancado, você tem nada. Quando nada lhe resta, não é vazio. Ele ocupa todo o seu espaço, escapa pelos olhos, cobre os ouvidos, fecha a traquéia e pára o coração. É tão sentimento como o amor ou o medo. Não costuma ser definitivo, mas uma vez que se experimenta, ele nunca se vai, porque há sempre uma parte em nós em que nada fica. Quanto menos você tem, mais espaço você consegue e esse conflito é constante. É difícil viver com o próprio nada já que queremos e buscamos tudo. Buscamos anular o nada, mas como uma arma, o nada só ganha cores dependendo de onde se aponta e da pressão sobre o gatilho. Portanto, é fugaz: quando o gatilho é pressionado e ele ganha suas cores, ele deixa de ser nada e se torna algo. Nada não é bom, tampouco tudo é. Algo é melhor, menos absoluto e dogmático. Há algo em tudo e em nada. É uma medida tão criteriosa e precisa que algo deveria ser uma unidade de base para a grandeza da quantidade de matéria e imatéria, ou usado como uma lente. Dependendo da direção que essa lente aponta, mudam-se as quantidades e os valores. Algo, como tudo e nada, é adimensional. Mas tudo e nada se perdem em valores infinitos, positivos e negativos. O algo pondera.
      Passei a mão nos cabelos de Clarice, beijei seu rosto e deitei em seu ombro, acariciando a sua mão.
      "Você sente alguma coisa?", perguntei.
      Clarice manteve-se em silêncio e parou de se debater. Clarice ponderou.
      "Estou me esforçando para isso. Mas sinto um desejo, uma sensação de me livrar dessas restrições.", ela me respondeu calmamente.
      Eu não a respondi. Apertei sua mão contra a minha e a deixei ali, voltando para o meu trabalho.

      Clarice, você não pôde notar naquele momento, mas o que você percebeu como momento da explosão de um processo foi o momento que você pressionou o gatilho no nada. Algo já estava em processo e mesmo que eu não pudesse dizer nada para ajudá-la, sequer precisei tentar fazê-lo, você já estava caminhando. Eu não fiz nada, você fez algo e fiquei tão feliz porque o algo não é instantâneo, mas já é o algo. E leva tempo, Clarice. Também sinto minhas crises me escapando pelos olhos, cobrindo meus ouvidos, fechando minha traquéia e parando meu coração, assim como você. Sei como você se sentia, apesar de não ter sentido em seu lugar. E naquele momento eu percebi que você já estava em algo e isso me tranquilizou. É como um acalanto. É reconfortante saber que alguém que amamos tanto conseguiu encontrar o algo, ainda que todos nos perdamos vez ou outra. Clarice, você já estava em algo e em algo agora está. Suas cicatrizes deixam marcas em todos nós, tenho suas cicatrizes invisíveis em mim. E sei que você tem as minhas. E deixamos cicatrizes e marcas em tantas pessoas que não percebemos que as cicatrizes são lembranças de que nada aconteceu, mas que já passou. E as cicatrizes que recebemos são lembranças que não estamos solitários. Às vezes você vai se sentir sozinha, mas jamais estará solitária.

      Olhei para trás e Clarice estava olhando mais uma vez para o nada. Em seguida, desvencilhou o olhar, o repousou em mim e sorriu. Clarice tinha algo e subitamente, ela o sabia.

Acidentes

      Minhas questões sempre foram demasiadamente humanas, mas não físicas ou materiais. Demasiadamente humano, assim como somos e nem sempre possamos admitir. Sempre me interessei pelas falhas, pelas pequenas belezas acidentais, pelo acidente de viver e morrer, adoecendo e sarando de amores, fugas, tempestades e gripes. Pela pequena morte que nos aguarda, pela pequena vida que surge. Essas miniaturas todas, coexistindo sem saber se de fato existem.
      Devo estar ficando louco, mas recentemente fiquei extremamente interessado em acidentes de carro. Mais especificamente, atropelamentos. A súbita interrupção de uma pessoa, de uma vida. O súbito momento que o motorista não viu aquela pessoa atravessando a rua ou simplesmente cruzou o sinal vermelho e atingiu alguém. O rompimento do silencioso pacto entre motoristas e pedestres, a violação instintiva das regras e da vida, a destruição simples de uma vida igualmente tão simples quanto complexa. Alguns instantes entre a pura ignorância da existência para uma ligação emocional tão forte. Instantes com o tempo de um choque; um contato tão violento que rompe a carne, tinge o metal, encharca os olhos e turva a visão. Você consegue ver a beleza disso tudo? Não desejo atropelar ninguém, nem desejo a minha morte, sequer aprecio observar atropelamentos alheios, não se trata disso. É apenas dado fato que subitamente considero fascinante, de extrema beleza, que me causa comoção. Me parece simplesmente poesia. Não se trata da morte ou dos aspectos negativos. É comovente como isso pode acontecer com tantas coisas ao redor, tudo torna-se suspenso. Ninguém entende muito bem, todos temem por encarar a própria mortalidade ali, num pobre coitado. E pouco depois, se foi.
      E essa poesia acontece sem ninguém esperar, sem preparativos, rituais ou expectativas. É uma poesia pura.
      Note que não estou citando suicidas, maníacos ou pervertidos. Considero-os dentro de suas próprias categorias, longe desta. Esta trata-se da delicadeza da carne e dos ossos em direta justaposição ao peso das máquinas e do metal. O acaso violentando mutuamente carne e metal, sacralizando culpa e redenção. Há uma beleza tão abstrata nisso que após o baque é possível deitar sobre o silêncio que toma o lugar. Um silêncio tal qual se todos, naquele instante, tivessem contato com a poesia e não conseguissem mais exprimir as palavras usuais nem os ruídos rotineiros. Nos admitimos humanos para então apenas sê-lo mais uma vez, inconscientemente.
      Todos os sons voltam e a poesia termina. Há apenas um corpo no chão, um homem culpado atrás do volante e uma multidão confusa sobre a situação.
      A confusão é justa. Muitos somos os acidentes de uma relação e sempre buscamos o controle sobre todas as etapas a seguir. É realmente confuso quando percebemos a miniatura das coisas. Quando percebemos em um único instante que o choque entre gente e carro, carro e chão, chão e gente foi apenas uma forma e exibição extremas do contato e ligação que há entre tudo e todos, constantemente em movimento ainda que parecessem imóveis e distantes. A física quântica e algumas religiões colocam isso, mas só conseguimos perceber isso através da poesia ocasional que estremece nossas bases.
      E ironicamente, apesar do livre e constante contato, mesmo em um atropelamento, nós jamais nos tocamos. Permanecemos como somos, todos ligados entre si, seja gente, seja pedra. E sempre distantes uns dos outros, sozinhos. Do nascimento ao fim da vida.
      Talvez a maior razão da dificuldade de nos admitirmos humanos. Porque dói.

20091012

Um método

     Os fatos jogaram contra mim. Me vi subitamente sem escolha do que fazer, pra onde ir, o que escolher. Rodei em meu pensamentos, recolhendo-os por aí. De tudo o que havia ficado para trás. Do tanto que deixa-se pelo caminho porque pesa, pesa, pesa, pesa o corpo e a alma e coração. E das ganas de gritar para exprimir só ficou o lento mastigar dos pensamentos. Queria exprimir para não explodir. Mas não explodi afinal.
     Não soube dizer de quem foi a culpa. É fácil expiar a própria culpa e ignorar o outro lado. Tão fácil quanto supervalorizar os sentimentos alheios e mergulhar em culpa e tristeza. Talvez sejam extremos. Para mim, só servem para delimitar os limites razoáveis de ação. Passados os extremos, ainda me questiono se encontrei a razão.
     Quando eu a abordei e questionei a razão de tais atitudes por parte dela, recebi o olhar daquele que encontra conforto em culpar os outros por seus problemas. Não consegui reagir. Não posso conversar ou contra-argumentar com algo assim. Todos temos o nosso tempo para amadurecer e refletir. Era o meu tempo, não o dela. Não era justo. Me despedi e cada um saiu para seu lado.
     Alguns passos depois, parei e fiquei observando Camila se afastar. Ela caminhava sem muita pressa ou ambição, claramente imersa em seus pensamentos mais uma vez. Ela andava e em um dado momento, olhou para qualquer coisa que a fez quase se virar para mim, mas ela não me viu. E seguiu seu caminho. Vi que dentro de alguns passos Camila iria desaparecer em uma esquina, por trás de um grande muro. Nesse momento, nesse preciso momento, me virei e caminhei na direção oposta.
     Me questionei a razão daquela atitude, em seguida. Me questionava: a separação era inevitável. Por que você desviou o olhar antes do fim?
     E rapidamente encontrei a resposta. Quando eu desvio o olhar, eu mantenho a pessoa. Eu mantenho a minha segurança e meu senso de realidade. Eu sou o parâmetro, eu escolhi quando não veria mais a pessoa. Quando a pessoa se afasta e desaparece e isso está fora do meu controle, fico desamparado porque fiquei sujeito ao mundo, aquele instante, aquela imagem tão fugaz me foi retirada. Isso pode acontecer de maneira brusca, em casos de tragédias ou acidentes, mas ali, ali seria uma maneira tão gentil para isso, como já fora tantas vezes.
     Isso que eu percebi me fez sentir alguma contentação pessoal, uma espécie de alívio em perceber minhas limitações naquele momento. Um alívio porque me senti humano em meu sentimento, igualmente tão sincero quanto egoísta. Ainda assim, isso dificilmente se caracteriza um método.
     A distância é muito mais difícil quando suas memórias são levadas de você, na sua frente, sem pressa ou discussão. E acidentalmente, encontrei esse método de manter uma parte dela ali comigo.

     No entanto, concordo que há mais de um método por aí.

20090407

Uma tarde qualquer

      As marcas do reflexo da luz no teto formam desenhos abstratos da mais simples beleza. São marcas refletidas por carros e sombras de pedestres, que se projetam oscilantes através das pequenas frestas da janela em um dia ridiculamente quente. Os dedos de Camila brincam delicadamente com meus cabelos e sinto sua respiração suave refrescando meu rosto enquanto ela lê um livro, que segura com a outra mão. Olho para cima e vejo seus olhos castanhos compenetrados nas linhas de Javier Marías. Estico um braço e acaricio seu rosto e seus cabelos. Ela sorri e me lança um olhar quase tímido.
      Me viro de lado e me coloco em uma posição semi-fetal sobre suas coxas, encontrando uma área incrivelmente confortável ali. Poderia cochilar facilmente sobre ela.
      "O que você quer almoçar?", ouço sua voz.
      "Eu falei que faria o almoço hoje", respondo após uma pausa, murmurando de olhos fechados, quase dormindo. Houve algum silêncio.
      "Então... O que vamos almoçar, Gregor?" ela questionou, rompendo o silêncio com um sorriso irônico que não pude ver mas se fez ouvir. Fingi dormir.
      "Gregor?"
      Eu dormia.
      "E o meu almoço?" ela questiona enquanto coloca o livro ao seu lado.
      "Ssshhh..." respondo com preguiça.
      Ela então apertou meu nariz, bloqueando minha respiração e o puxou com alguma determinação. Dei de ombros. Ela então desistiu de meu nariz, acendeu um cigarro e voltou para o seu livro. Espiei pelo canto do olho e Camila estava realmente lendo mais uma vez.
      "Ei", falei me levantando e sentando ao seu lado "não era pra você desistir assim de mim!"
      "Se eu soubesse que almoçaria um Marlboro vermelho teria comprado pelo menos umas maçãs pra acompanhar" ela respondeu sem mover os olhos.
      Comecei a rir. "Que tal umas abobrinhas recheadas?"
      "Abobrinhas? Não tem uma bisteca de porco bem suculenta?"
      "Bisteca eu acho que não... Tinha bacon mas ele fugiu com o Babe, o porquinho atrapalhado, semana passada", comentei.
      Ela desviou a atenção do livro e me olhou com cinismo, refletindo o meu próprio pós-piada-do-Babe.
      "Sério mesmo, foi um negócio emocionante!" falei com a expressão mais séria e verdadeira do mundo. E finalizei "Mas deixaram as abobrinhas para trás. Por isso ofereci."
      "As abobrinhas estão ótimas pra mim", ela respondeu.
      Levantei e antes de sair do quarto, já na porta, parei e me voltei para Camila.
      "Você as quer de alguma maneira especial, Cá?"
      Com os olhos baixos no livro, ela me repondeu.
      "Mal passadas, por favor." esboçando um sorriso.
      "Sangrando!", respondi energeticamente.

20090406

Cristina

      Cristina é uma mulher inteligentíssima, criativa e divertida. Seu rosto não é delicado ou lindo e tem um corpo mais cheio que os padrões impõem atualmente, mas seus atributos não físicos são suficientemente desejáveis a ponto de homens que se deixassem conhecê-la diriam que Cristina é uma mulher bonita. Parte disso é o seu sorriso espontâneo e sincero que no mínimo atrai curiosos para saber o que mais há por trás dessa mulher de aparência um pouco desleixada e olhos tão brilhantes.
      Ela já teve alguns namorados e sai com este rapaz de porte médio e ideias idem. O tipo de cara que ela sai porque não suporta a ideia de estar sozinha, ainda que tantas pessoas estejam ao seu redor e uma parte delas tenha afeição por Cristina. Ela não suporta estar sozinha.
      Sua carência é tamanha e infundada que Cristina dorme com muitos homens que exprimem qualquer simpatia por ela. Ela não o faz por um real desejo por todos aqueles homens, mas apenas porque Cristina não pode ficar sozinha com si em momento algum e como uma espécie de gratidão por aquela faísca de atenção, Cristina lança-se sobre estes homens com intensidade e tristeza, gozando um afeto vazio e esperançoso, falhando miseravelmente na tentativa de suprir o que parecem necessidades cotidianas mas são simplesmente atos falhos na busca do amor próprio.
      Ela não vai encontrar jamais o seu amor próprio em fodas esporádicas com homens que sorriem em sua direção porque tal carência é destrutiva e Cristina tem tanto controle em sua inteligência racional que não é impossível ficar perplexo com a fragilidade de sua inteligência emocional. É questionável falar em uma inteligência emocional já que a razão jamais encontrará formas de exprimir a emoção com propriedade e justiça mas declaro assim por algum comodismo.
      Outra noite, encontrei Cristina em um bar e ela me recebeu sorrindo e carinhosa como sempre. Ela estava com alguns amigos e todos bebiam seus copos de cerveja enquanto conversavam animadamente. Me uni ao grupo e invariavelmente conversava mais diretamente com Cristina. Notei que após algum tempo, ela se oferecia para mim sem pudores e assim sendo, me mantive neutro às suas investidas pois não sentia igual atração por ela, simplesmente não me interessava e acredito que de alguma forma Cristina percebeu pois senti alguma irritação em seu olhar.
      Ainda assim, de repente Cristina me beijou e após o beijo, me afastei um pouco dela e falei olhando em seus olhos um pouco embriagados.
      "Acho que você confundiu um pouco as coisas, Cristina."
      "Oh, Roberto..." ela parou por um instante e continuou, "desculpe... não queria deixá-lo constrangido nem nada, só achei que você também estivesse a fim..."
      "Não precisa pedir desculpas, você agiu como achava ser correto, não há nada de errado nisso."
      Ela sorriu e voltou para os assuntos na mesa, de uma certa maneira me evitando. Não podia fazer nada já que isso é algo dela, somente, e senti que qualquer tentativa de retomar uma conversa com Cristina para deixar claro que pouco daquilo me importou seria mal interpretado novamente.
      Isso ficou mais claro pra mim quando Cristina passou a investir em outro amigo que dançou uma música com ela logo após nosso beijo e subitamente ele tornara-se seu foco. Sabia que ele não era o cara pra ela e provavelmente ela também. Ele já não estava tão sóbrio e não estava exatamente interessado nela, mas ela investia no rapaz com um interesse pessoal e inconsciente. Minutos depois, ela o beijou e não foram muitos minutos até que eles transaram no banheiro do bar.
      Cristina voltou a mesa com ele; o rapaz ainda era carinhoso com ela na medida do alcoolismo, mas ela não podia perceber aquele ato de afeto de uma outra pessoa. Cristina apenas conseguira novamente perceber o vazio daquilo tudo. Nesses momentos sempre me preocupo com Cristina porque sua desolação é tal que muitas vezes acredito que ela pode procurar o alívio com um tiro na própria cabeça. Seria uma ação tão extrema e estúpida, mas me entristece perceber que isso é tão plausível e cabível em suas ações que prefiro pensar que Cristina encontrará todo aquele amor que ela tem em si e perceberá como é auto-suficiente de tantas maneiras e, assim, ela poderá encontrar alguém para se entregar de verdade, não por gratidão ou por falta de correspondência pessoal, que tudo aquilo não passa de um somente si.
      E Cristina não mais lutará contra seus próprios fantasmas porque ela perceberá que é humana e tudo bem. E de todas as condições nojentas e tristes e possíveis, essa é a única verdadeiramente impossível de se alterar, e que isso a obrigaria a viver em mutação, com variações de humor e pontos de vista, entre a segurança e a insegurança de si e de seus atos, com alegrias reais e tristezas inexplicáveis, com otimismo e desespero, com realidades internas, com o inconcreto da vida, com a falta de chão, os frios na barriga, a impureza do ar, o brilho opaco das estrelas, os olhares indiferentes, rir até chorar, com contas a pagar, variações climáticas e com todas, todas as outras pessoas na mesma condição miserável de seres humanos, por todos os dias, até o fim da sua vida.

20090216

Vídeo: "Katie's Tea", Camille


"Katie's Tea" Experimental Video from Demétrius Daffara on Vimeo.

Eu e Diego produzimos este vídeo com a ajuda de nossa amiga Annelise.

A história da idéia é mais ou menos a seguinte: eu e Diego já produzimos experimentações com light art há algum tempo, mas até então toda incursão era feita com fotografias de longa exposição. Um dia no ano passado produzíamos algumas dessas fotografias utilizando o reflexo da luz em uma lente de uma outra câmera, que causava um efeito bonito e colorido, ainda que os pontos de luz que tínhamos em mãos fossem monocromáticos. Algumas fotografias depois, veio a idéia de fazer um vídeo e fizemos um meio que aleatoriamente. Assistindo ao vídeo, que já teve um efeito muito legal, colocamos para tocar uma música qualquer que eu tinha no celular. Em muitos momentos o vídeo sincronizava com a música e era uma coisa sensacional. Em seguida, decidimos por uma música, "Katie's Tea" da Camille, e gravamos um novo vídeo.

Não houve ensaio nem nada. Colocamos para tocar alguns instantes do final da música anterior (uma de Beethoven) e quando a música começou, deixamos a coisa tomar forma por si só.

O resultado é o vídeo acima. Houve até uma interferência durante a gravação, quando um SMS chegou em meu celular e interrompeu a música por dois segundos. Mas o vídeo está integral, com uma única alteração: sincronizei o áudio da música com maior qualidade sobrepondo o áudio que utilizamos como guia no dia da gravação.

Espero que gostem.

20090126

Paisagem

      Ainda não entendo o que está acontecendo. A noite não foi como são as noites. Não acordei como acordo. Não sou eu e nunca estive tão confortável comigo mesmo. A luz do dia não é a mesma. As pessoas não são as pessoas que estão por aí.
      Uma forte sensação de não pertencer, não estar, não compreender. E uma alegria inexplicável que cerca isto. Ou começa nisto. É impossível compreender o que está acontecendo e respiro e repito para mim o que poderia ser real. Mas sei que não é.
      Hoje, a luz do dia está inexplicavelmente peculiar. É como um crepúsculo, um constante crepúsculo. Não é dia nem noite. E já pensei em todas as possibilidades. Não estou sonhando, por exemplo. Já conferi umas duas vezes se estou respirando, se sinto minha pulsação. Está tudo ali.
      Os sons são estranhos e familiares, parece tudo novo, novamente. Os sabores e sensações também. Com a língua, faço alguma pressão sobre meus dentes. Eles não parecem tão fixos e imutáveis como ontem mesmo poderia jurar que são. Parecem ceder levemente, como dentes de leite em transição para os permanentes. E tantos anos após meus dentes de leite já terem ido embora, me pergunto se estes agora são realmente permanentes.
      A leveza de pensamentos e movimentos não se trata de um enfraquecimento, pelo contrário. Ultimamente buscava me desprender de todas as minhas armaduras e esconderijos de conveniência e de repente, mal consigo percebê-los. E como esperado, não trata-se de uma vulnerização mas de uma ação de fortalecimento. Fortalecer o que importa e expor isto porque é isto que sou e nisto que acredito. Estou tão consciente disso que sinto a beleza de cada átomo de mim e a beleza de cada átomo do mundo e a beleza de cada um destes átomos, meus e do mundo, estarem intimamente ligados, indissociáveis e indistinguíveis. São todas as coisas e uma só. Todos nós.
      E por este breve momento sinto uma profunda gratidão por estar aqui e poder perceber isto. Não sei o quanto isto dura. Se dura. O que me resta é agradecer.


A quem interessar, obrigado.

20090115

Mídias Digitais + Cinema Digital

Passei no vestibular e já estou matriculado! Este ano e por mais alguns estudarei Cinema.

Uma pessoa com formação em Mídias Digitais e que se formará também em Cinema Digital, o que é que dá? Não sei, ainda. Em quatro anos talvez eu tenha uma resposta. No momento, vou estudar Cinema. Cinema!

Só queria compartilhar isso com vocês.


Grato,

20090111

S.O.S. telefônico ou o outro lado da vida

(nota de introdução: hoje eu prestei vestibular, de novo. Conclui o meu curso no ano passado, hoje prestei Cinema Digital. Não fui brilhante na prova nem nada, mas a redação ficou até boa. Era uma tira do Laerte publicada em agosto passado. Era necessário fazer uma dissertação, uma narração ou uma carta. Escolhi narração e as condições eram: eu era o cara do último quadro e meu nome era Armando. E eu tinha que narrar aquilo tudo, quem era o personagem do primeiro quadro, etc. Fiz o texto e como pude trazer o rascunho, decidi publicá-lo aqui. Caso eu encontre a tira do Laerte, a deixarei aqui para referência, mas no momento, só posso mostrar o texto. Ainda que eu não adore textos que são feitos obrigatoriamente e o tenha escrito em 45 minutos, acho um tanto interessante. Boa leitura.)


      Estou sentado em minha sala junto ao telefone. Fim. Este é meu emprego, minha vida, em linhas gerais. Não há muito além disso, mas não estou realmente incomodado com esta situação, ao contrário de minha esposa que repetidas vezes me disse "Armando, querido, sua vida é chata. Seu emprego é chato." Bobagem, eu a disse. Faço o que faço e faço muito bem. Sou responsável por atender ligações e transcrevê-las. De maneira geral, não me é permitido interferir nas ligações porque não me é permitido, por contrato, interferir na vida. O mínimo de presença me garante o máximo de veracidade na transcrição da vida. Se me perguntam o que faço, então, é isso: narração antropológica, do homem, do mundo, da vida. Através de um telefone, claro.
      Acho um emprego justo, não tenho reclamações. A remuneração é adequada e o risco de acidentes é nulo. Já caí da cadeira alguma vezes sem nenhuma consequência maior. Certa vez, eu estava aqui sentado e... um momento, o telefone toca; levo o monofone à orelha, caneta em punho.Um voz desesperada me pede repetidas e infinitas vezes "Socorro! Socorro! Socorro!". Deve ser algum coitado ligando de algum orelhão. Pela sua voz, posso afirmar com bastante convicção de que ele está em uma situação de fuga, provavelmente há um homem armado à sua espreita, o coitado sabe que não tem chance e recorreu ao telefone público mais próximo em uma tentativa desesperada e, se me permite, pouco sábia de conseguir algum amparo. Seus olhos miúdos em pânico devem contrastar com sua bocarra escancarada emitindo seu suplício. Típico.
      O homem continua seu apelo e, ainda que eu não seja pago para fazer esse tipo de narração sobre as pessoas, eu o faço porque considero isso um bônus. Os gritos tornam-se mais aflitos e intensos, "socorrossocorrossocorro!", quase indecifráveis. Deve terminar logo. Um último "socorro" é interrompido por um forte estouro, seguido por um ruído e um baque. Ouço passos se aproximando. O telefone é desligado. Termino com um breve "22 de agosto de 2008. 18 horas e 33 minutos".
      Através das linhas telefônicas e dos postes é possível fazer tal amostragem da vida que gosto de pensar que sou um Darwin contemporâneo, registrando não a evolução mas a estagnação da espécie. Aliás, onde eu estava? Ah sim! Certa vez, eu estava aqui sentado e subitamente... um momento, o telefone toca; levo o monofone à orelha, caneta em punho. Penso "será que não vão me deixar terminar minha história?!"
      A voz fala com desespero. Transcrevo suas palavras sem interferir, etc., etc.

20090106

Alegria

      Isadora entrou no apartamento de Roberto em um passo diferente do habitual. Estava mais leve e honesta, livre de si. Roberto não estava e ela sabia disso, a rotina depois de seis anos de namoro é um mapa de horários e lugares que nunca incomodou a nenhum dos dois. E Isadora nesse momento estava explodindo de amor, como quem abre uma caixa e descobre o segredo da vida. Ela foi ao apartamento de Roberto para se despedir dele, uma boa despedida. Uma despedida que não causasse tristeza mas uma despedida que fosse possível de construir algo, não a despedida destrutiva que as pessoas abraçam ao primeiro aceno.
      Ela não sabia se Roberto entenderia aquilo, naquele momento. Ela não tinha como saber, mas sabia que certamente um dia ele compreenderia, afinal ele foi fundamental para que ela estivesse desta maneira e que fosse a pessoa que é.
      Então Isadora rasgou algumas fotos, queimou cartas, jogou pela janela presentes e lembranças. Rabiscou papéis e com as pernas fracas de satisfação, minutos depois, Isadora deixou o apartamento.

      No meio dos papéis rabiscados, apenas um era legível. Ele dizia:

HOJE
AMANHÃ
ONTEM






      Isadora foi embora e Roberto não a viu novamente.