João da Silva está entediado.
Recentemente ele se perguntou o que tinha feito de bom para si mesmo e ao mundo. Algo de emocionante e inesquecível. E concluiu que tudo passou sem ele nem se dar ao trabalho de olhar para o lado. E quando o fez, era tudo chato. Ele, sua vida, seu cabelo e até seus sapatos eram chatos. Um tédio.
João está entediado.
Seus olhos vazios procuram uma resposta. Uma saída. Ele se distrai com a música que está tocando em seu rádio, naquele momento. "Smoke get in your eyes" toca gentilmente. João da Silva sorri. Aquela música é muito especial para ele. Foi ao som dela que João da Silva tinha feito seu primeiro trabalho. Mas isso aconteceu há uns trinta anos atrás, quando ele era apenas um rapaz de vinte e um anos, cheio de sonhos e planos. Nesse momento ele não se lembra bem os motivos que o levaram a seguir aquela carreira. Mas desde então, ele não podia parar. E não queria fazê-lo. Até aquele momento. Afinal, aquela profissão é certa? Ele pode trocar para algo mais suburbano, algo de trabalho fixo durante o dia, jantar em família à noite. Contudo, quem vai empregá-lo com aquela idade? E o que ele sabe fazer além daquilo? Foi aquilo que ele sempre fez e só aquilo que ele sabe fazer. Profissionalmente, é claro.
Ele dá uma coçada no olho direito. Boceja. Desliga o rádio no meio de uma música qualquer, só esticando o braço, sem sair de posição, momento algum.
João, então, se lembra que precisa comprar umas coisas no mercado, depois. Vamos lá, é a comida do cachorro, uns sucrilhos e ovos. Não pode esquecer-se de arroz integral, iogurte e umas frutas. O médico o mandou diminuir o açúcar, cortar o álcool e comer mais frutas, vegetais e um monte de lixo natureba. Só de pensar, ele quer morrer. Mas que se foda, também vai comprar uma caixa de chocolates, duas garrafas de vodca para seu velho amigo, o Bloody Mary, cerveja e obviamente um pacote de jujubas. Desde moleque, esse é seu vício. Digo, sentar em frente ao aparelho de televisão e assistir a um bom filme. Ele, particularmente, gosta muito de comédias românticas e dramas. Dá uma coçada na bunda. Dramas do Leste Europeu, sabe? Ou mesmo o cinema francês, todo cheio de poesia e beleza. Ou aqueles filmes japoneses, cheios de lições de moral, de vida e de história sem ação. Não que ele não gostasse de cinema norte-americano. Karatê Kid é um clássico e os Goonies são realmente bons, apesar do Sloth ser meio molenga. Mas no geral, os filmes americanos são meio tediosos, como por exemplo, aquele filme do.
João da Silva é interrompido. Por um pombo idiota que entrou pela janela e cagou em seu braço. Filho da puta. Depois João cuida desse bicho nojento.
Ele acende um cigarro e se lembra que tem de ligar para a mãe. Aquela senhora já tem seus setenta e três anos e continua ativa pra diabo. E ele faz o possível para falar com ela, no mínimo, duas vezes por semana e, agora, já é sexta-feira e ele não ligou pra ela nenhuma vez ainda. Se ela o visse ali, naquele momento, no penúltimo andar de um prédio abandonado, junto à janela, diria que ele precisa se casar pra aprender a viver como um homem. Mas ele já pensou nisso e já quase engrenou num casamento, mas é duro para as mulheres lidarem com sua profissão. Por mais que elas tentem. E isso o faz sentir mais arrependimento. E vergonha por ser que é e fazer o que faz. Seria incrível ter família. Filhos. E provavelmente, ele já teria netos. Mas não. Ele é um velho careca e beberrão, fazendo uma dieta idiota, furando a dieta de vez em quando e vendo filmes a maior parte do tempo. Mas que droga de vida é a vida de João da Silva. Ele boceja outra vez, só em pensar nisso. E na sua vidinha de merda tediosa e chata. Em que ele se engana sempre e tem momentos de felicidade de vez em.
Ele é interrompido mais uma vez.
Dessa vez, pelo alarme do seu relógio de pulso. Já é hora dele trabalhar. Pra valer. Ele toma seu instrumento de trabalho em mãos e então se mantém fixo, como o artista tentando captar o momento exato da inspiração, olhando lá pra baixo, pra rua, onde começa a passar um grupo de pessoas. Fanfarra. Polícia. E lá está o carro do presidente. O recém-eleito presidente.
João da Silva nem faz muito esforço. O carro é aberto, um conversível e tanto, ele diria. Foi olhar e atirar. Nesse caso, três vezes. Acertou-o na cabeça e no peito. O terceiro tiro acertou em cheio o banco do carro. Matou aquele pedaço de couro estofado. Hora do óbito: nove horas e quarenta e um minutos.
As pessoas ficam em pânico. A polícia em rebuliço. O presidente está morto.
João da Silva se mantém, olhando a movimentação. Dois de três tiros. Não seria nada mal para qualquer um outro, mas pra ele é como se um padre tivesse errado o Pai-Nosso.
Eu devo estar ficando velho, pensa consigo.
João sai da janela e guarda o rifle. Ajeita a gravata e desce calmamente a construção. Lá embaixo, pára perante a multidão que se atropela, fitando-a, orgulhoso. Dá um tapa na testa.
O suco de tomate! Ele não pode se esquecer de comprar o maldito suco de tomate. Onde já se viu um Bloody Mary sem suco de tomate?
É, ele está ficando velho mesmo.
20041229
20041225
Natal. Netel. Nitil. Notol. Nutul. Nãotãol.
É isso aí, criançada. Tá acabando o Natal.
Em dois minutos é dia 26 e todas as pessoas vão voltar a ter aquela cara feia de sempre com o mau-humor exalando de seus poros suados, se mal-dizendo por suas existências insignificantes.
Por isso vamos aproveitar esses dois minutos que nos restam.
Afinal, Natal é só uma vez por ano.
Feliz Crimble!
20041130
Tomas
Tom segue rua abaixo, com o passo apertado. De vez em quando, olha para trás e apesar da rua cheia, um rosto insiste em repetir-se em meio à multidão. Um homem, magro, alto e com cara de poucos amigos. Tom está inquieto. Seria muita coincidência dois homens seguirem a mesma direção, sentido e ritmo por uma rua inteira ou duas?
Ele não sabe responder mas seus passos o levam para dentro de um banco, onde ele trata de se colocar ao fim de uma fila, sequer olhando quem está nela.
Com a respiração arrítmica e um suor frio escorrendo pelo seu rosto, ele vira para trás, em direção à porta giratória. E aguarda. O homem estava há uns 10 metros dele. Ele entrará a qualquer momento. Seus olhos são dois pontos negros, encarando fixamente a porta giratória, ao som único e apavorante de sua respiração perturbada pelas batidas secas de seu coração, com seu sangue torridamente gelado e pensando em nada, pois nada lhe convém pensar.
Ele aguarda alguns instante e gradualmente recupera o fôlego e o sangue amorna-se novamente mas as batidas continuam a cortar-lhe o ouvido. Se o homem não entrou até então, ele provavelmente já foi embora. Só resta a Tom arriscar-se e sair novamente da segurança do banco para os perigos inimagináveis de uma rua cheia de estranhos.
Ainda de olhos fixos à porta, ele pisa um passo meio duro e depois outro e segue, encarnado-a, ganhando velocidade e aproxima-se lentamente da porta. Caminha como o homem condenado à forca, que vai em direção ao seu insólito destino, sem chance de voltar. A porta está à sua frente e quando Tom está a cinco passos dela, resolve acender um cigarro. Aliás, precisa acender um cigarro. Maldito vício!
Pára.
Com os olhos ainda fixos à porta e ignorando qualquer aviso de proibido fumar, enfia a mão no direito do paletó, pega o maço de cigarros e antes que possa sacá-lo do bolso, um som consegue ser alto o suficiente para interromper-lhe as batidas de perturbarem seus ouvidos e o distrai.
Seus olhos então desviam-se finalmente da porta giratória e ao olharem para dentro do banco, observam as pessoas, todas, deitadas ao chão. E dois homens armados o encaram junto à porta, visivelmente apressados e tensos. A insegurança exala de seus olhos miúdos de ladrões baratos e é cravada pelo leve tremular de suas mãos empunhando aquelas pistolas semi-automáticas roubadas.
Tom os observa atônito, imóvel. Impassível. Os homens parecem gritar com Tom, mas Tom não parece ouvi-los.
Encarando-os nos olhos, em um movimento brusco, ele puxa a mão do bolso, trazendo consigo o maço de cigarros.
E o som de tiros penetram-lhe o pensamentos. Quente, seco e dilacerante, sobrepujando-lhe o som da batida e rasgando-lhe o invólucro da alma e da ignorância.
Ele cai. Sentindo a vida vazar de seu corpo, ele ouve os gritos e choros assustados daquele lugar. Levando a mão para sobre seu corpo, sente algo transbordar de si, algo quente e vital.
Pela primeira vez em sua vida, Tomas Bernt sentiu a liberdade transbordando de seu corpo, numa sensação única em meio à mediocridade em que sempre se viu.
Antes que tudo aquilo acabasse, Tom riu-se.
E deixou que o sangue gelasse mais uma vez.
Ele não sabe responder mas seus passos o levam para dentro de um banco, onde ele trata de se colocar ao fim de uma fila, sequer olhando quem está nela.
Com a respiração arrítmica e um suor frio escorrendo pelo seu rosto, ele vira para trás, em direção à porta giratória. E aguarda. O homem estava há uns 10 metros dele. Ele entrará a qualquer momento. Seus olhos são dois pontos negros, encarando fixamente a porta giratória, ao som único e apavorante de sua respiração perturbada pelas batidas secas de seu coração, com seu sangue torridamente gelado e pensando em nada, pois nada lhe convém pensar.
Ele aguarda alguns instante e gradualmente recupera o fôlego e o sangue amorna-se novamente mas as batidas continuam a cortar-lhe o ouvido. Se o homem não entrou até então, ele provavelmente já foi embora. Só resta a Tom arriscar-se e sair novamente da segurança do banco para os perigos inimagináveis de uma rua cheia de estranhos.
Ainda de olhos fixos à porta, ele pisa um passo meio duro e depois outro e segue, encarnado-a, ganhando velocidade e aproxima-se lentamente da porta. Caminha como o homem condenado à forca, que vai em direção ao seu insólito destino, sem chance de voltar. A porta está à sua frente e quando Tom está a cinco passos dela, resolve acender um cigarro. Aliás, precisa acender um cigarro. Maldito vício!
Pára.
Com os olhos ainda fixos à porta e ignorando qualquer aviso de proibido fumar, enfia a mão no direito do paletó, pega o maço de cigarros e antes que possa sacá-lo do bolso, um som consegue ser alto o suficiente para interromper-lhe as batidas de perturbarem seus ouvidos e o distrai.
Seus olhos então desviam-se finalmente da porta giratória e ao olharem para dentro do banco, observam as pessoas, todas, deitadas ao chão. E dois homens armados o encaram junto à porta, visivelmente apressados e tensos. A insegurança exala de seus olhos miúdos de ladrões baratos e é cravada pelo leve tremular de suas mãos empunhando aquelas pistolas semi-automáticas roubadas.
Tom os observa atônito, imóvel. Impassível. Os homens parecem gritar com Tom, mas Tom não parece ouvi-los.
Encarando-os nos olhos, em um movimento brusco, ele puxa a mão do bolso, trazendo consigo o maço de cigarros.
E o som de tiros penetram-lhe o pensamentos. Quente, seco e dilacerante, sobrepujando-lhe o som da batida e rasgando-lhe o invólucro da alma e da ignorância.
Ele cai. Sentindo a vida vazar de seu corpo, ele ouve os gritos e choros assustados daquele lugar. Levando a mão para sobre seu corpo, sente algo transbordar de si, algo quente e vital.
Pela primeira vez em sua vida, Tomas Bernt sentiu a liberdade transbordando de seu corpo, numa sensação única em meio à mediocridade em que sempre se viu.
Antes que tudo aquilo acabasse, Tom riu-se.
E deixou que o sangue gelasse mais uma vez.
20041106
KORN FLAKES - Uma Lembrança.
Sei lá, ando muito saudosista. De vez em quando eu me reservarei no direito de publicar algo velho do KoRn Flakes que eu tenho aqui guardado. O de hoje é muito especial. E idiota. Afinal, o que era o koRn Flakes senão um blogue idiota?
Esse texto, uma crônica de uma dia real da minha vida é do dia dez de setembro de 2003.
O INCRÍVEL MUNDO DAS ERVILHAS ZUMBIS E OUTRAS HISTÓRIAS EXCÊNTRICAS.
Eu sou uma pessoa bastante distraída. Eu me distraio e me esqueço das coisas com uma velocidade assustadora. Pode ser efeito da água mineral natural sem gás. Mas o maior problema é que eu acabo falando demais ou agindo demais em momentos errados. Com pessoas erradas. Praticamente todo dia tem um "fora" novo que eu dou por aí. Eu sou o Rei dos Foras.
O mais recente foi esses dias. No centro de São Paulo, estava eu a procurar um suspensório bem bonito e divertido. Eu encontrei! Uma felicidade. Enquanto eu saía saltitante pelas ruas e esquinas cantarolando alguma canção ou hino de alegria extrema, na tentativa de compartilhar minha felicidade decido dar uma moeda a um mendigo. Eu quase nunca dou, nunca tenho grana, mas 25¢ não me fariam falta naquele meu momento de tamanho êxtase.
Numa calçada, aquelas com uma mureta que tem árvores, onde as pessoas se sentam, tinha lá, um de cada tipo: Um sem uma perna, outra com elefantíase, um ou dois cegos, outro com as perninhas engraçadinhas, enfim, uma desgraça ao lado da outra e eu escolhendo qual seria a premiada. E sentada ao lado de tudo isso, uma mulher, também com cara de cansada, com um carrinho de bebês com uma criança dentro. Aquele sol, a criança, o olhar cansado, porra, ela precisava mais de 25¢ do que qualquer outro. Ela tinha uma criança!
Me aproximo. Ela me fita. Eu sorrio. Estendo a mão, coloco a moedinha dentro do carrinho de bebê, jogo a moeda, dou um sorriso ainda maior com um olhar de propaganda de margarina. Aparentemente, ela não ficou feliz. Enfim, viro-me e vou saindo, com um ar de dever cumprido, feliz da vida porque eu ajudei, com pouca coisa, uma mulher necessitada. Dois passos vitoriosos me afastam da mulher.
- EU NÃO SOU MENDIGA NÃO! MAS QUE FILHO DA PUTA! - Pega a minha moeda, taca no chão com violência. Continua aos berros. - EU NÃO PRECISO DESSE SEU DINHEIRO DE MERDA! EU NÃO SOU MENDIGA!
Merda. Fodeu. A mulher estava sentada provavelmente descansando. Tinha uma loja em frente. Daquelas cheias de gente se acotovelando. Alguém deve ter entrado lá e ela ficou esperando a pessoa sair, já que ela com um carrinho de bebê não consegue entrar nesses lugares cheios. E eu piedosamente lhe dou 25¢. Eu saí, sem olhar pra trás, só apertei o passo e torci para que ela não tivesse um bumerangue.
Esse texto, uma crônica de uma dia real da minha vida é do dia dez de setembro de 2003.
Eu sou uma pessoa bastante distraída. Eu me distraio e me esqueço das coisas com uma velocidade assustadora. Pode ser efeito da água mineral natural sem gás. Mas o maior problema é que eu acabo falando demais ou agindo demais em momentos errados. Com pessoas erradas. Praticamente todo dia tem um "fora" novo que eu dou por aí. Eu sou o Rei dos Foras.
O mais recente foi esses dias. No centro de São Paulo, estava eu a procurar um suspensório bem bonito e divertido. Eu encontrei! Uma felicidade. Enquanto eu saía saltitante pelas ruas e esquinas cantarolando alguma canção ou hino de alegria extrema, na tentativa de compartilhar minha felicidade decido dar uma moeda a um mendigo. Eu quase nunca dou, nunca tenho grana, mas 25¢ não me fariam falta naquele meu momento de tamanho êxtase.
Numa calçada, aquelas com uma mureta que tem árvores, onde as pessoas se sentam, tinha lá, um de cada tipo: Um sem uma perna, outra com elefantíase, um ou dois cegos, outro com as perninhas engraçadinhas, enfim, uma desgraça ao lado da outra e eu escolhendo qual seria a premiada. E sentada ao lado de tudo isso, uma mulher, também com cara de cansada, com um carrinho de bebês com uma criança dentro. Aquele sol, a criança, o olhar cansado, porra, ela precisava mais de 25¢ do que qualquer outro. Ela tinha uma criança!
Me aproximo. Ela me fita. Eu sorrio. Estendo a mão, coloco a moedinha dentro do carrinho de bebê, jogo a moeda, dou um sorriso ainda maior com um olhar de propaganda de margarina. Aparentemente, ela não ficou feliz. Enfim, viro-me e vou saindo, com um ar de dever cumprido, feliz da vida porque eu ajudei, com pouca coisa, uma mulher necessitada. Dois passos vitoriosos me afastam da mulher.
- EU NÃO SOU MENDIGA NÃO! MAS QUE FILHO DA PUTA! - Pega a minha moeda, taca no chão com violência. Continua aos berros. - EU NÃO PRECISO DESSE SEU DINHEIRO DE MERDA! EU NÃO SOU MENDIGA!
Merda. Fodeu. A mulher estava sentada provavelmente descansando. Tinha uma loja em frente. Daquelas cheias de gente se acotovelando. Alguém deve ter entrado lá e ela ficou esperando a pessoa sair, já que ela com um carrinho de bebê não consegue entrar nesses lugares cheios. E eu piedosamente lhe dou 25¢. Eu saí, sem olhar pra trás, só apertei o passo e torci para que ela não tivesse um bumerangue.
20041024
O Nexo Anexo do Septo em Trauma
(por capt. Dimitri Moloko)
O apogeu do cheirador
acontecia nas tardes mais belas.
aquele dito inútil e feio
antecipava o sabor do refresco;
agora, entupido, não cheira.
sangra. dói. incha.
E a platéia grita
-uga uga uga hei.
..
Eu sou um artista.
Eu transformo a minha dor em arte.
O apogeu do cheirador
acontecia nas tardes mais belas.
aquele dito inútil e feio
antecipava o sabor do refresco;
agora, entupido, não cheira.
sangra. dói. incha.
E a platéia grita
-uga uga uga hei.
..
Eu sou um artista.
Eu transformo a minha dor em arte.
20041011
A Lei de Murphy aplicada à vida
Eu sou uma pessoa com uma tendência enorme à acidentes, erros e no azar em geral. Falando no geral, isso me diverte, às vezes. É a velha e boa tragicomédia. Só que aí tem vezes que isso sai do controle. E é difícil até pra eu mesmo acreditar nessa sucessão de fatos.
Na última terça-feira, 5, Eu estava em casa, lendo jornal, assistindo TV, jogando hóquei, essas coisas. Então, um estalo que me faz grudar no teto. E a luz se apaga. Em seguida, um estrondo ecoa pela rua. Resquícios de uma explosão. "Deve ter sido aquela coisa do poste que nos dá a energia elétrica". Pode ter sido. Desliguei os aparelhos eletrônicos da tomada, mas só aqueles mais acessíveis e fáceis de religar depois que a energia voltasse. cerca de 10 min depois, a energia volta, religo tudo e constato que o meu modem do Ispídi, internet rápida e trambiques, não liga. Queimou. Vou ao telefone. O telefone também queimou. Lá fora, as pessoas gritam horrorizadas, pois aparentemente a explosão queimou suas retinas e derreteu suas genitálias. Rapidamente me tranco em casa. Meu coração palpita numa velocidade inédita e sento-me para ler o jornal, perguntando-me "O que será que vai passar na TV?"
No mesmo dia, lá na rua apareceu um carro da operadora de telefones/internet mexendo naquelas caixas de telefone que todos conhecemos, certo?
Enfim, eles começam a mexer naquilo. E nada do telefone voltar. Passam-se quarta, quinta e sexta-feira. Todos os dias aqueles homens mexem na maldita caixa e o telefone continua na mesma. Rumores indicam que aqueles homens, na verdade, eram agentes da Polícia Especial e naquela caixa havia uma bomba escondida. "Novidade", pensei.
Sábado, mais um dia isolado do mundo, sem a menor perspectiva de vida. Um feriado pela frente, uma bomba na rua e tudo caminha para o lado escuro da força. Mais à noite, lá para umas 19h, estou fazendo uns desenhos pra um trabalho e rasgando o silêncio daquela casa triste e morta, o insuportável som do telefone soa como as trombetas dos anjos depois do apocalipse. Festejamos! Todos nós! Eu, minha família, Alf e meu papagaio.
Então, ligo para o negócio da internet banda larga. "Vamos resolver isso de uma vez" eu digo. Resolvi tudo no telefone e em dois dias, 48h no máximo eles viriam me ajudar. No outro dia de manhã, 9h30 o homem chega. Domingo de manhã;aquele marasmo é cortado pela euforia de poder enfim acessar as maravilhas da internet, a pornografia gratuita e o dinheiro fácil com imigrantes ilegais. O homem troca o modem, faz uns testes e vai embora. Eu sento-me diante do monitor com um sorriso vitorioso. Começo a olhar uns sites.. tantos dias longe, tanta coisa pra fazer.. Fico olhando os sites por cerca de 40 minutos. As cores do monitor começam a embaçar. A imagem se distorce, tudo se retorce. Espíritos tentavam se comunicar comigo através daquele aparelho elétrico. "Porra..", pensei "Não tem pão velho", disse. Então, em um flash luminoso, a tela fica toda escura, exceto por uma linha branca, horizontal, insinuante. Gentilmente e delicadamente como Charles Bronson, dou um tapinha no lado do monitor. A imagem some. O monitor pifa. E fim.
Agora, nesse momento, estou em uma lan house. Essa garotada jogando qualquer jogo, xingando-se fervorosamente e eu, aqui, me sentindo um estranho no ninho, um mosquito na sopa; eu precisava fazer umas pesquisas de um trabalho que é pra quarta-feira. Fiz uma bela pesquisa, e em material a separar, eu tinha mais de 60 páginas. Só que quando eu fui salvar pra me enviar por e-mail pra eu depois ver se conseguiria fazer, descubro que como é computador de loja, eu não tenho essas regalias. Tentei me enviar tal documento através de um programa mas aparentemente, não deu certo. Foi tudo em vão.
Por causa do feriado, da explosão e de um ataque alienígena, só vou ter um novo monitor na qurta-feira, 13.
E já são tantos fatos absurdamente azarados que eu já não sei dizer, com certeza, o que aconteceu de verdade.
Na última terça-feira, 5, Eu estava em casa, lendo jornal, assistindo TV, jogando hóquei, essas coisas. Então, um estalo que me faz grudar no teto. E a luz se apaga. Em seguida, um estrondo ecoa pela rua. Resquícios de uma explosão. "Deve ter sido aquela coisa do poste que nos dá a energia elétrica". Pode ter sido. Desliguei os aparelhos eletrônicos da tomada, mas só aqueles mais acessíveis e fáceis de religar depois que a energia voltasse. cerca de 10 min depois, a energia volta, religo tudo e constato que o meu modem do Ispídi, internet rápida e trambiques, não liga. Queimou. Vou ao telefone. O telefone também queimou. Lá fora, as pessoas gritam horrorizadas, pois aparentemente a explosão queimou suas retinas e derreteu suas genitálias. Rapidamente me tranco em casa. Meu coração palpita numa velocidade inédita e sento-me para ler o jornal, perguntando-me "O que será que vai passar na TV?"
No mesmo dia, lá na rua apareceu um carro da operadora de telefones/internet mexendo naquelas caixas de telefone que todos conhecemos, certo?
Enfim, eles começam a mexer naquilo. E nada do telefone voltar. Passam-se quarta, quinta e sexta-feira. Todos os dias aqueles homens mexem na maldita caixa e o telefone continua na mesma. Rumores indicam que aqueles homens, na verdade, eram agentes da Polícia Especial e naquela caixa havia uma bomba escondida. "Novidade", pensei.
Sábado, mais um dia isolado do mundo, sem a menor perspectiva de vida. Um feriado pela frente, uma bomba na rua e tudo caminha para o lado escuro da força. Mais à noite, lá para umas 19h, estou fazendo uns desenhos pra um trabalho e rasgando o silêncio daquela casa triste e morta, o insuportável som do telefone soa como as trombetas dos anjos depois do apocalipse. Festejamos! Todos nós! Eu, minha família, Alf e meu papagaio.
Então, ligo para o negócio da internet banda larga. "Vamos resolver isso de uma vez" eu digo. Resolvi tudo no telefone e em dois dias, 48h no máximo eles viriam me ajudar. No outro dia de manhã, 9h30 o homem chega. Domingo de manhã;aquele marasmo é cortado pela euforia de poder enfim acessar as maravilhas da internet, a pornografia gratuita e o dinheiro fácil com imigrantes ilegais. O homem troca o modem, faz uns testes e vai embora. Eu sento-me diante do monitor com um sorriso vitorioso. Começo a olhar uns sites.. tantos dias longe, tanta coisa pra fazer.. Fico olhando os sites por cerca de 40 minutos. As cores do monitor começam a embaçar. A imagem se distorce, tudo se retorce. Espíritos tentavam se comunicar comigo através daquele aparelho elétrico. "Porra..", pensei "Não tem pão velho", disse. Então, em um flash luminoso, a tela fica toda escura, exceto por uma linha branca, horizontal, insinuante. Gentilmente e delicadamente como Charles Bronson, dou um tapinha no lado do monitor. A imagem some. O monitor pifa. E fim.
Agora, nesse momento, estou em uma lan house. Essa garotada jogando qualquer jogo, xingando-se fervorosamente e eu, aqui, me sentindo um estranho no ninho, um mosquito na sopa; eu precisava fazer umas pesquisas de um trabalho que é pra quarta-feira. Fiz uma bela pesquisa, e em material a separar, eu tinha mais de 60 páginas. Só que quando eu fui salvar pra me enviar por e-mail pra eu depois ver se conseguiria fazer, descubro que como é computador de loja, eu não tenho essas regalias. Tentei me enviar tal documento através de um programa mas aparentemente, não deu certo. Foi tudo em vão.
Por causa do feriado, da explosão e de um ataque alienígena, só vou ter um novo monitor na qurta-feira, 13.
E já são tantos fatos absurdamente azarados que eu já não sei dizer, com certeza, o que aconteceu de verdade.
20040930
Sagrado/Profano - Histórias trágicas de um pirata
Quando eu era criança, eu assistia Faustão, e adorava.
Eu e minha irmã assistíamos ao Domingão do Faustão e yada yada. Deixei de assistir Faustão na casa dos 10, 11 anos de idade.
No último domingo me peguei assistindo Faustão novamente. A Xuxa estava lá, poxa. E isso me lembrou de uma história.
Eu já não costumava dar aquela forcinha para o Faustão, como de costume. Eu já tava lá pelos meus 12 anos. Eu e Carolina, a irmã, assistíamos àquela algazarra televisa no meio do domingo. Então, Faustão disse:
"E logo após os reclames do plim-plim, a mulher que requebra na igreja tomando graviola dando um show de sensualidade com um cachorro e dois pedaços de carne!"
Eu logo me pronunciei, com minha então voz de pré-adolescente:
-O que diabos são esses reclames do plim-plim? Desde pequeno eu escuto ele chamar mas nunca vi esses reclames do plim-plim. Mas que droga!
-Duh, são os comerciais, ela diz.
-Ah... -respondo eu.
FIM
Eu e minha irmã assistíamos ao Domingão do Faustão e yada yada. Deixei de assistir Faustão na casa dos 10, 11 anos de idade.
No último domingo me peguei assistindo Faustão novamente. A Xuxa estava lá, poxa. E isso me lembrou de uma história.
Eu já não costumava dar aquela forcinha para o Faustão, como de costume. Eu já tava lá pelos meus 12 anos. Eu e Carolina, a irmã, assistíamos àquela algazarra televisa no meio do domingo. Então, Faustão disse:
"E logo após os reclames do plim-plim, a mulher que requebra na igreja tomando graviola dando um show de sensualidade com um cachorro e dois pedaços de carne!"
Eu logo me pronunciei, com minha então voz de pré-adolescente:
-O que diabos são esses reclames do plim-plim? Desde pequeno eu escuto ele chamar mas nunca vi esses reclames do plim-plim. Mas que droga!
-Duh, são os comerciais, ela diz.
-Ah... -respondo eu.
20040902
20040829
A menina do deserto
Dolores acorda e ainda de olhos fechados, sente o calor irradiando do chão. O solo é fofo, de uma areia fina e o calor é intenso. Ela abre os olhos e olha ao redor. Areia e mais areia. O sol escaldante e areia. Um vento fraco. Areia, areia, areia.
Ela não se lembra como foi parar ali e nem se lembra de muita coisa. Em sua busca pela memória, só encontra seu nome e alguns sentimentos confusos. Dolores se sente desamparada, vê que ali ela só poderia vagar. No alto de seus treze anos, ela sente-se como uma menina no deserto.
A intensidade do calor parece aumentar e ela caminha, sem direção certa. No horizonte, dunas de areia parecem amontoar-se desesperadamente; ela não tem sinal de civilização e aparentemente, não terá pelas próximas horas. Ela vê apenas imagens ao longe, imagens desconexas. Miragens, ela pensa. Dolores também ouve vozes, que ecoam pelo deserto. vozes familiares e agradáveis, porém desordenadas e muitas vezes amarguradas.
-Você tomou muito sol na cabeça, sua estranha, ela repetia para si mesma.
Ao fim da caminhada, ela cai exausta e sem energia para continuar. Está anoitecendo e, bruscamente, a temperatura cai e Dolores apenas está de encontro àquele chão gelado, tremendo e batendo os dentes, sentindo seu corpo adormecer. As vozes, gradativamente tornam-se mais claras.
"Você vai ficar bem. Vai dar tudo certo."
"Logo, logo você vai sair daqui."
Tudo torna-se escuro de uma vez. Ela escuta uma voz clara, melodiosa e arrogante. O volume da voz é alto e direto. É a voz de sua mãe.
"Ela está acordando..!"
Dolores abre os olhos. Sua mãe, o médico, seu pai, a enfermeira ranzinza sem razão e uma segunda enfermeira mais próxima ao seu soro, ao lado da cama, com uma seringa em mãos. Todos a olham com expectativa, ao redor da sua cama. Dolores não entende bem o que se passa. Ela vê que está atada à cama, paredes frias e escuras, lençóis brancos, um chão cinzento. Seus olhos fixam-se sobre uma fotografia na cabeceira. Uma garota bonita, sorridente, feliz. Seu coração começa a palpitar. Mas sente um alívio. Ela não se lembrava de como a felicidade era algo tão simples. Contudo, quem é essa garota? não é sua filha, afinal ela não se lembra de nada parecido. Seria algum parente? uma amiga, uma vizinha? Ou talvez seria... sim, era ela mesma, talvez aos treze anos, no máximo quatorze. Ela era feliz, quem sabe ainda fosse. Leva as mãos ao rosto, e vê que suas mãos estão profundamente envelhecidas, suas mãos estão fracas, magras, secas. Seu rosto é flácido e com profundas olheiras. Ela olha para a foto novamente na cabeceira. quantos anos ela passou ali naquela cama? Vinte, trinta, provavelmente mais. Quem sabe cinqüenta anos ali, presa, inútil! Mas, por quê? O que ela tinha feito de tão ruim que.
Uma voz interrompe seus pensamentos. Era o médico.
-Como você está, Dolores?
Ela sente-se agoniada. Desesperada, revoltada, inútil; ela começa a chorar e grita. Grita por socorro, grita pedindo por ajuda. Grita.
-Enfermeira, dê uma dose generosa de calmante para nossa garota, ela ainda precisa descansar.
A mãe, com lágrimas nos olhos e uma feição cansada, antiga, abraça o pai. Eles choram juntos. Dolores olha para a direita e vê a enfermeira número dois aplicar a injeção em seu soro. Instantaneamente, sente seu braço queimar, sua temperatura subir; seu estômago se revira, seus olhos escurecem novamente e o chão parece sumir debaixo de si. A dor, o desespero. Então, o calor. E o alívio.
Dolores acorda e ainda de olhos fechados, sente o calor irradiando do chão. O solo é fofo, de uma areia fina e o calor é intenso. Ela abre os olhos e olha ao redor.
Ela não se lembra como foi parar ali e nem se lembra de muita coisa. Em sua busca pela memória, só encontra seu nome e alguns sentimentos confusos. Dolores se sente desamparada, vê que ali ela só poderia vagar. No alto de seus treze anos, ela sente-se como uma menina no deserto.
A intensidade do calor parece aumentar e ela caminha, sem direção certa. No horizonte, dunas de areia parecem amontoar-se desesperadamente; ela não tem sinal de civilização e aparentemente, não terá pelas próximas horas. Ela vê apenas imagens ao longe, imagens desconexas. Miragens, ela pensa. Dolores também ouve vozes, que ecoam pelo deserto. vozes familiares e agradáveis, porém desordenadas e muitas vezes amarguradas.
-Você tomou muito sol na cabeça, sua estranha, ela repetia para si mesma.
Ao fim da caminhada, ela cai exausta e sem energia para continuar. Está anoitecendo e, bruscamente, a temperatura cai e Dolores apenas está de encontro àquele chão gelado, tremendo e batendo os dentes, sentindo seu corpo adormecer. As vozes, gradativamente tornam-se mais claras.
"Você vai ficar bem. Vai dar tudo certo."
"Logo, logo você vai sair daqui."
Tudo torna-se escuro de uma vez. Ela escuta uma voz clara, melodiosa e arrogante. O volume da voz é alto e direto. É a voz de sua mãe.
"Ela está acordando..!"
Dolores abre os olhos. Sua mãe, o médico, seu pai, a enfermeira ranzinza sem razão e uma segunda enfermeira mais próxima ao seu soro, ao lado da cama, com uma seringa em mãos. Todos a olham com expectativa, ao redor da sua cama. Dolores não entende bem o que se passa. Ela vê que está atada à cama, paredes frias e escuras, lençóis brancos, um chão cinzento. Seus olhos fixam-se sobre uma fotografia na cabeceira. Uma garota bonita, sorridente, feliz. Seu coração começa a palpitar. Mas sente um alívio. Ela não se lembrava de como a felicidade era algo tão simples. Contudo, quem é essa garota? não é sua filha, afinal ela não se lembra de nada parecido. Seria algum parente? uma amiga, uma vizinha? Ou talvez seria... sim, era ela mesma, talvez aos treze anos, no máximo quatorze. Ela era feliz, quem sabe ainda fosse. Leva as mãos ao rosto, e vê que suas mãos estão profundamente envelhecidas, suas mãos estão fracas, magras, secas. Seu rosto é flácido e com profundas olheiras. Ela olha para a foto novamente na cabeceira. quantos anos ela passou ali naquela cama? Vinte, trinta, provavelmente mais. Quem sabe cinqüenta anos ali, presa, inútil! Mas, por quê? O que ela tinha feito de tão ruim que.
Uma voz interrompe seus pensamentos. Era o médico.
-Como você está, Dolores?
Ela sente-se agoniada. Desesperada, revoltada, inútil; ela começa a chorar e grita. Grita por socorro, grita pedindo por ajuda. Grita.
-Enfermeira, dê uma dose generosa de calmante para nossa garota, ela ainda precisa descansar.
A mãe, com lágrimas nos olhos e uma feição cansada, antiga, abraça o pai. Eles choram juntos. Dolores olha para a direita e vê a enfermeira número dois aplicar a injeção em seu soro. Instantaneamente, sente seu braço queimar, sua temperatura subir; seu estômago se revira, seus olhos escurecem novamente e o chão parece sumir debaixo de si. A dor, o desespero. Então, o calor. E o alívio.
Dolores acorda e ainda de olhos fechados, sente o calor irradiando do chão. O solo é fofo, de uma areia fina e o calor é intenso. Ela abre os olhos e olha ao redor.
20040721
Super freak, super freak
Outro dia eu sonhei que eu era o Moacir Franco em "Meu Cunhado".
Eu só queria vir aqui e dividir isso com vocês.
Obrigado,
Eu só queria vir aqui e dividir isso com vocês.
Obrigado,
20040704
Clara oo3
Clara foi almoçar com a amiga, Janete. Janete estava toda animada, em dois dias ia encontrar-se com um namoradinho. Namorado por carta. E por isso, Janete forçou Clara a almoçarem juntas num restaurante light. Comida diet. Éca.
-Porra, Janete, não sei como você conseguiu me convencer a vir aqui. Um monte de mato com mato. Que nojo.
-Ah, Clara, cê exagera, meu. É uma delícia isso aqui. E o melhor: Não engorda, não dá celulite e ainda é de fácil digestão.
-Preferia que comessem meu cu.
-Pára de reclamar e come.
Janete serve-se de saladas e mais saladas. Clara olha tudo meio enojada. Da próxima vez, nem que a Janete aponte uma arma pra cabeça dela, ela vai comer naquele lugar de merda.
Enquanto Janete colocava pequenas porções de mato no prato, Clara atacou os grelhados. Encheu o prato de carne de tudo que é tipo, colocou uma folha de alface, uns cogumelos e uma porção de ovos de codorna. E ela sempre pensava "deus, como eu adoraria que tudo fosse gorduroso, com capa de banha e colesterol". Comida diet. Éca.
Após o tedioso almoço, as duas foram dar um passeio numa feira hippie. Janete queria comprar um presente pro namoradinho.
-Meu, cê acredita que essa noite eu tive o mesmo pesadelo da noite passada?
-Aquele pesadelo?
-É, aquele, tudo em preto-e-branco, o sufocamento, a escuridão e eu acordo. Duas noites seguidas, que inferno.
-Ah, sonho, pesadelo, é tudo coisa pro cérebro não parar de funcionar. Não liga não, Clara.
-É que é meio real, é um saco. Parece mesmo que eu estou.. sei lá..
-Morrendo?
-É, pode ser. Mas é besteira. Isso passa.
-É, com certeza passa. Mudando de assunto, o que eu devo comprar pro Tomas?
-Janete, cê não acha esse lance de namoradinho por carta meio escroto?
-Ah, Clara, você que reclama de tudo. O Tomas é um homem e tanto. Nunca conheci homem como ele, pessoalmente.
-Mas e se todo esse encanto se quebrar quando você chegar lá?
-Pelo menos essa ilusão durou por carta. E fazia tempo que eu não me sentia assim tão... tão...
-Estúpida? Puta?
-Apaixonada, Clara, apaixonada. Um dia você vai se apaixonar e vai ver o que é bom.
-Tá, o que você disser. Eu só acho que é meio perig--
Clara é interrompida por um vendedor exaltado.
-Olhem aqui, donas. Charutos cubanos. Os melhores de todas a região de Honolulu.
-Puxa, charutos são ótimos presentes pro Tomas. Tenho certeza que ele vai adorar.
-Pera, Janete. Moço, eles são cubanos mesmo?
-Cubanos e dos bons, dona, enrolados nas coxas de cubanas fartas.
-Não implica, Clara.
-Moço, Honolulu não é no Hawaii?
-É que.. é um vilarejo em Cuba. Um belíssimo vilarejo, que produzem os melhores charutos.
-Viu, Clara?
-Eu ainda acho que--
-Não implica, Clara.
-Vai levar, dona?
-Vou, me dá uma caixa!
-É presente?
-É sim!
-Tenho certeza que é um homem muito sortudo e de muito bom gosto.
-É o melhor deles!- respondeu Janete, sorrindo.
-Porra, Janete, não sei como você conseguiu me convencer a vir aqui. Um monte de mato com mato. Que nojo.
-Ah, Clara, cê exagera, meu. É uma delícia isso aqui. E o melhor: Não engorda, não dá celulite e ainda é de fácil digestão.
-Preferia que comessem meu cu.
-Pára de reclamar e come.
Janete serve-se de saladas e mais saladas. Clara olha tudo meio enojada. Da próxima vez, nem que a Janete aponte uma arma pra cabeça dela, ela vai comer naquele lugar de merda.
Enquanto Janete colocava pequenas porções de mato no prato, Clara atacou os grelhados. Encheu o prato de carne de tudo que é tipo, colocou uma folha de alface, uns cogumelos e uma porção de ovos de codorna. E ela sempre pensava "deus, como eu adoraria que tudo fosse gorduroso, com capa de banha e colesterol". Comida diet. Éca.
Após o tedioso almoço, as duas foram dar um passeio numa feira hippie. Janete queria comprar um presente pro namoradinho.
-Meu, cê acredita que essa noite eu tive o mesmo pesadelo da noite passada?
-Aquele pesadelo?
-É, aquele, tudo em preto-e-branco, o sufocamento, a escuridão e eu acordo. Duas noites seguidas, que inferno.
-Ah, sonho, pesadelo, é tudo coisa pro cérebro não parar de funcionar. Não liga não, Clara.
-É que é meio real, é um saco. Parece mesmo que eu estou.. sei lá..
-Morrendo?
-É, pode ser. Mas é besteira. Isso passa.
-É, com certeza passa. Mudando de assunto, o que eu devo comprar pro Tomas?
-Janete, cê não acha esse lance de namoradinho por carta meio escroto?
-Ah, Clara, você que reclama de tudo. O Tomas é um homem e tanto. Nunca conheci homem como ele, pessoalmente.
-Mas e se todo esse encanto se quebrar quando você chegar lá?
-Pelo menos essa ilusão durou por carta. E fazia tempo que eu não me sentia assim tão... tão...
-Estúpida? Puta?
-Apaixonada, Clara, apaixonada. Um dia você vai se apaixonar e vai ver o que é bom.
-Tá, o que você disser. Eu só acho que é meio perig--
Clara é interrompida por um vendedor exaltado.
-Olhem aqui, donas. Charutos cubanos. Os melhores de todas a região de Honolulu.
-Puxa, charutos são ótimos presentes pro Tomas. Tenho certeza que ele vai adorar.
-Pera, Janete. Moço, eles são cubanos mesmo?
-Cubanos e dos bons, dona, enrolados nas coxas de cubanas fartas.
-Não implica, Clara.
-Moço, Honolulu não é no Hawaii?
-É que.. é um vilarejo em Cuba. Um belíssimo vilarejo, que produzem os melhores charutos.
-Viu, Clara?
-Eu ainda acho que--
-Não implica, Clara.
-Vai levar, dona?
-Vou, me dá uma caixa!
-É presente?
-É sim!
-Tenho certeza que é um homem muito sortudo e de muito bom gosto.
-É o melhor deles!- respondeu Janete, sorrindo.
20040627
Clara oo2
Clara já estava para sair de casa quando o telefone tocou. Após 2 chamadas e meia, ela atendeu.
-Alô?
-Alô, Clara! Como você vai?
-Tô levando. Quem é?
-Porra, sou eu, o Paulo!
-Ah, oi Paulo! E aí, meu?
-Tem programa pra hoje?
-O que você acha?
-Acho que agora você vai ter. Vamos ao cinema?
-Pois...?
-Pois tá passando Festim Diabólico no cinema novo. Aquele lá, o "cult", hahah, sabe?
-Sei.
-E aí, vamos?
-Não tô a fim.
-Vamos, vai! Cê precisa sair pra se divertir! Vamos?
-Tá, tá legal.
-Beleza! A gente se vê então na Avenida dos Mafagafos, em frente ao cinema, lá pelas duas!
-Tá legal.
-Clara..
-quê?
-Toma cuidado.
-..tá.
Desligando o telefone, ela dirigiu-se para o banheiro, onde tomou um banho demorado, refletindo sobre o sonho da noite anterior. Já era a terceira noite consecutiva que esse sonho a afligia. E apesar dos esforços, eles não pareciam querer parar. Cada noite parecia mais real. Cada vez, tudo soava mais próximo. Ela pouco se importou. Todo mundo morre um dia, mesmo.
Depois do banho, Clara vestiu um jeans desbotado, uma camiseta preta e seu coturno. Amarrou os cabelos curtos num pequeno rabo-de-cavalo e passou as mãos por sobre o rosto. Sentiu algo diferente e correu para olhar-se no espelho. Seu rosto estava como sempre, magro e expressivo. Seu olhar expressava um certo desapontamento.
-Essa merda já tá me deixando paranóica.
Instantes depois, já estava caminhando pela rua. Faltava ainda uma hora, mas ela queria chegar cedo. Um pouquinho ao menos.
Aquele dia estava nublado, mas bastante abafado. Ia chover a qualquer momento, Clara sentia em seus ossos. Mas não levou sequer um guarda-chuva- Eu não sou a bruxa do mágico de Oz pra derreter com água, então, que se foda- e levava apenas uma moedas no bolso e uns 20$ na carteira. O cinema era barato, isso era a menor das preocupações.
Clara tinha um passo apressado, naturalmente. Mesmo que ela não estivesse com pressa, era como se ela estivesse caminhando pra ir para o banco faltando cinco minutos para fechar. Pressa.
Ela associava isso à sua ansiedade crônica. Ela já teve as unhas todas roídas, mas hoje contenta-se em caminhar. Desde cedo sua mãe já dizia Clara, você é muito ansiosa, menina! mas Clara achava isso bom. E justamente por isso ela odeia gente molenga. Falta de propósito na vida, porra.
Enfim, chegou em frente ao cinema. Do outro lado da rua um prédio estava sendo construído. Clara sentou-se no banco e ficou admirando aquele futuro prêmio de concreto, que orgulhava tantas pessoas. Os molengas, no geral. Gente sem propósito na vida. Estúpidos.
Seus pensamentos são interrompidos por propostas, vinda daquela construção. Os pedreiros estavam em horário de almoço.
-E aí, boneca!
Clara ignorou.
-Ih, a boneca é metida.. eu sei do que uma boneca metida gosta..
Clara virou e olhou pro outro lado.
-Ah, bonequnha, cê deve ter uma bela rosca. Dá sua rosca pra mim!
Clara emputeceu-se. Ela gritou.
-E eu lá achei minha rosca no lixo pra dar pra vagabundo? Vai tomar no seu cu!
Os pedreiros riam. Menos o vagabundo, então constrangido, de sorriso amarelo no rosto.
E um ônibus passou a toda velocidade por detrás de Clara, na calçada. Desgovernado, chocou-se contra um prédio.
O estrondo metálico encheu o quarteirão.
-Alô?
-Alô, Clara! Como você vai?
-Tô levando. Quem é?
-Porra, sou eu, o Paulo!
-Ah, oi Paulo! E aí, meu?
-Tem programa pra hoje?
-O que você acha?
-Acho que agora você vai ter. Vamos ao cinema?
-Pois...?
-Pois tá passando Festim Diabólico no cinema novo. Aquele lá, o "cult", hahah, sabe?
-Sei.
-E aí, vamos?
-Não tô a fim.
-Vamos, vai! Cê precisa sair pra se divertir! Vamos?
-Tá, tá legal.
-Beleza! A gente se vê então na Avenida dos Mafagafos, em frente ao cinema, lá pelas duas!
-Tá legal.
-Clara..
-quê?
-Toma cuidado.
-..tá.
Desligando o telefone, ela dirigiu-se para o banheiro, onde tomou um banho demorado, refletindo sobre o sonho da noite anterior. Já era a terceira noite consecutiva que esse sonho a afligia. E apesar dos esforços, eles não pareciam querer parar. Cada noite parecia mais real. Cada vez, tudo soava mais próximo. Ela pouco se importou. Todo mundo morre um dia, mesmo.
Depois do banho, Clara vestiu um jeans desbotado, uma camiseta preta e seu coturno. Amarrou os cabelos curtos num pequeno rabo-de-cavalo e passou as mãos por sobre o rosto. Sentiu algo diferente e correu para olhar-se no espelho. Seu rosto estava como sempre, magro e expressivo. Seu olhar expressava um certo desapontamento.
-Essa merda já tá me deixando paranóica.
Instantes depois, já estava caminhando pela rua. Faltava ainda uma hora, mas ela queria chegar cedo. Um pouquinho ao menos.
Aquele dia estava nublado, mas bastante abafado. Ia chover a qualquer momento, Clara sentia em seus ossos. Mas não levou sequer um guarda-chuva- Eu não sou a bruxa do mágico de Oz pra derreter com água, então, que se foda- e levava apenas uma moedas no bolso e uns 20$ na carteira. O cinema era barato, isso era a menor das preocupações.
Clara tinha um passo apressado, naturalmente. Mesmo que ela não estivesse com pressa, era como se ela estivesse caminhando pra ir para o banco faltando cinco minutos para fechar. Pressa.
Ela associava isso à sua ansiedade crônica. Ela já teve as unhas todas roídas, mas hoje contenta-se em caminhar. Desde cedo sua mãe já dizia Clara, você é muito ansiosa, menina! mas Clara achava isso bom. E justamente por isso ela odeia gente molenga. Falta de propósito na vida, porra.
Enfim, chegou em frente ao cinema. Do outro lado da rua um prédio estava sendo construído. Clara sentou-se no banco e ficou admirando aquele futuro prêmio de concreto, que orgulhava tantas pessoas. Os molengas, no geral. Gente sem propósito na vida. Estúpidos.
Seus pensamentos são interrompidos por propostas, vinda daquela construção. Os pedreiros estavam em horário de almoço.
-E aí, boneca!
Clara ignorou.
-Ih, a boneca é metida.. eu sei do que uma boneca metida gosta..
Clara virou e olhou pro outro lado.
-Ah, bonequnha, cê deve ter uma bela rosca. Dá sua rosca pra mim!
Clara emputeceu-se. Ela gritou.
-E eu lá achei minha rosca no lixo pra dar pra vagabundo? Vai tomar no seu cu!
Os pedreiros riam. Menos o vagabundo, então constrangido, de sorriso amarelo no rosto.
E um ônibus passou a toda velocidade por detrás de Clara, na calçada. Desgovernado, chocou-se contra um prédio.
O estrondo metálico encheu o quarteirão.
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