20051109

Chave no Coelho

Jóia!


Olá, amigo.
Você já notou a pequena coluna de fotos que se encontra no menu ali ao lado?

Não?

Já?

E os comentários, agora provisórios, porém funcionando? Notou?



Eu já devia imaginar.

20051104

Dolores.txt

   Rosa entrou em casa, visivelmente nervosa. Suas mãos, úmidas pelo suor, seguravam a bolsa junto ao corpo, cansado e dolorido, após um longo dia de trabalho.
   Ela encontrou o marido na cozinha, com uma lata de cerveja numa das mãos e um sorriso besta no rosto. Rosa olhou-o com desprezo, ódio. Seu rosto, antes sempre sereno, abrigava uma expressão amarga, cheia de repulsa. O marido a olhou, sem compreender o que acontecia e aproximou-se da esposa.
   A mulher nada conseguiu dizer; apenas largou a bolsa, olhando seu homem fixamente nos olhos para então virar-se e ir para seu quarto.
   Sentada à mesa, Dolores, a filha do casal, assistiu à cena, atônita. Viu o pai abaixar-se para recolher a bolsa e passou alguns minutos encarando o objeto, pensativo. Uma figura imóvel, solitária, no meio da cozinha. Para Dolores, aquilo durou horas e nada precisava ser dito, afinal, aquilo parecia ser mesmo inevitável. Sentiu medo.
   Durante a madrugada, ouviu os pais discutirem, novamente. Não era a primeira vez e Dolores tanto desejava quanto temia que fosse a última. A confusão, aquelas palavras feias, a voz chorosa enquanto firme da mãe. O som grave do pai, incisivo.
   A garota podia sentir a mágoa pulsando junto de seu coração. Uma mágoa adquirida daquele medo. A sensação de traição, destruição. Uma necessidade urgente de liberar-se, abraçar os pais e dizer, com sua voz, típica de uma garota de seis anos, Tudo vai ficar bem, acalmem-se. No entanto, não conseguia se mover. Não queria se mover; queria deixar aquelas sensações ruins para trás, Tudo ficará bem pela manhã, você só precisa dormir, Lolita, um pouco de sonhos e sono lhe fará bem, você verá. Queria rezar, mas não lembrava de nenhuma oração. Contentou-se em cantar uma canção, para si, um tanto melancólica. Tentar fazer os gritos desaparecerem e estar tudo normal, amanhã, de manhã. A dona Aranha subiu pela parece, veio a chuva forte e a derrubou; Rosa, cala essa boca, não vou aceitar isso, de maneira alguma; já passou a chuva, o sol já está saindo; não me manda calar a boca, você não tem saída e sabe disso; e a dona Aranha continua a.
   Pela manhã, tudo estava silencioso, novamente. Dolores levantou-se, com cuidado e desceu até a cozinha. O pai já tinha saído pra trabalhar. A mãe, de olhos vermelhos, encarava uma xícara de café como se fosse veneno. Nenhuma palavra foi dita quando a garota adentrou o recinto e nem mesmo quando sentou-se à mesa. Mesmo assim, Dolores seguiu seu ritual. Encheu um copo de suco de laranja, tomou-o lentamente, gole por gole, até esvaziá-lo por completo. Cortou um pão no meio, abriu-o, passou margarina, jogou achocolatado em pó. Enfiou no microondas. Trinta segundos.
   Tirou o pão e sentou-se novamente à mesa. Ao lado da mãe. Olhava fascinada o vapor sair do pão aberto, com o chocolate misturado à gordura, uma aparência repugnante e ainda suculenta. Dolores fechou delicadamente o pão e devorou-o da mesma maneira calma e cuidadosa que teve para com o suco. Mastigava cada pedaço, trinta, quarenta vezes, aproveitando a mistura de sabores até aquilo virar uma massa homogênea e insípida. Então engolia.
   Na terceira mordida, seu ritual foi interrompido, brevemente, pela voz áspera e direta da mãe, com cheiro de álcool e tristeza.
   -Seu pai não volta mais.
   A garota encarou a mãe, que voltara o olhar para a xícara de café e não sabia o que dizer. Quis gritar, tentar trazer o pai de volta, fazer a mãe feliz. Então engoliu. Mordeu outro pedaço do pão, dessa vez sem se concentrar, sem se divertir. Não conseguia mastigar com o cuidado e delicadeza usuais; não conseguia sentir mais esses prazeres nessas pequenas coisas; não mais. Não conseguia olhar para a mãe, tampouco para suas mãos. Se sentia suja, culpada. Sentia pena de si mesma, daquela mulher decadente à sua frente. Estendeu uma mão até alcançar a jarra de leite, despejando timidamente o líquido num copo limpo, de tom esverdeado.
   Seus movimentos eram constrangidos, ela não devia estar ali, ela não queria estar ali, se sentia uma estranha, uma indigente. Empurrou a cadeira devagar, fazendo-a ranger, sonorizando a cozinha até então silenciosa, como gemidos culpados e dolorosos.
   Cautelosamente, aproximou-se do microondas com o copo de leite na mão. Receosa, colocou o copo na bandeja do aparelho, tentando evitar qualquer cacofonia desnecessária. Contudo, o som do vidro fez-se ouvir, constrangendo ainda mais a garota.
   Ligou o aparelho e encarou os números arrastando-se no marcador digital. Não via mais sentido naquilo. Na vida. Tudo parecia suficientemente idiota e cretino, vazio de qualquer sentido mais profundo que não fosse o do olhar. Dolores sentiu-se idiota por não ter percebido isso antes. Era completamente óbvio! Os segundos no display corriam em ritmo de valsa. Dois pra lá, dois pra cá, infinitamente bailando. E sempre foi assim. Sempre será. E nessa dança, um pouco antes ou depois, as coisas se tornaram claras para ela. A vida ficou rasa frente aos seus olhos, ainda novatos e agora tão esclarecidos, assimilando rapidamente aquela valsa e conseqüentemente a vida.
   Foi aí, mais ou menos aí, que Dolores percebeu que a vida era monótona.

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20050420

Cravo Azul

   O dia amanhece, preguiçosamente, como se não quisesse amanhecer. E Marília acorda, com o sol na sua cara, não querendo acordar mas era tarde demais. As cortinas estavam escancaradas e se ela fosse algum tipo de vampiro, ela não teria visto o sol nascer quadrado, certamente. Ela ainda encara o prédio, que decora a vista privilegiada de seu apartamento, recobrando o pensamento. O sono já fora perdido há tantos minutos. Esse sim um vampiro, maldito. Bendito.
   Ela joga as pernas pra fora da cama e senta-se, tentando recuperar a energia perdida dos bruscos movimentos das pernas. Olha para a janela, olha pra sua mão esquerda. Corre os olhos para o despertador, ansioso, tic tac tic tac tic tac tic, ansioso pelo momento que iria acordá-la, oficialmente, dentro de uma hora. Olha a janela, novamente e segue o facho de luz até o chão, onde repousa um cravo, azul celeste, salpicado de manchas brancas. Marília encara a flor como quem encara uma ressaca. O que diabos aquela flor estava fazendo ali?
   Ela abaixa-se e o pega, delicadamente, pelo caule, longicaule, espinhoso, não azul. Aproxima-o do rosto, amassado pelo travesseiro, e cheira a flor, como se aquilo fosse responder à questão dela. O cheiro era de cravos, se parecia com um cravo e bem, obviamente era um cravo. Azul. No quarto dela. Ela levanta-se e caminha até a janela.
   Levanta a mão segurando o cravo pra tentar enxergar algo mais nele. E ao levantá-lo, contra o céu, Marília nota as cores delicadas nas pétalas perfeitas da flor. E era como se o cravo fosse a última peça de um quebra-cabeça pois ele parecia completar o céu. Parecia fazer parte dele, como se fosse invisível ou simplesmente uma gravura, ficcional. E não importava para onde ela o apontasse. Os ceús sempre se reverenciavam perante o cravo azul.
   Fascinada pelo estranho fenômeno, Marília, aponta-o para o sol. E como mágica, o sol pareceu estar nas pétalas do cravo. A garota então, bruscamente, puxa o cravo para dentro. E o sol continuava nas pétalas azul-celeste da flor.
   Assim sendo, o mundo viu-se coberto em escuridão, total escuridão.
   O caos! O apocalipse! Nas ruas, tudo é desespero. Na televisão, as pessoas pedem por ajuda, dão entrevistas. Eu já sabia que isso ia acontecer, está na Bíblia, o sol iria se apagar. Debates calorosos sobre o assunto são propostos à todo momento. Sempre havia um outro espertinho, querendo ser espertinho até na merda do fim do mundo. É impossível o sol se apagar, ele explodiria e todos morreríamos, sem percebermos ou ele viraria um buraco negro e seríamos sugados, entrando em colapso, em seguida. E a taxa de mortos aumenta consideravelmente, suicidas e desesperados. Atos desesperados. Outros tantos se reúnem em igrejas, procuram por respostas na fé, na igreja; Por favor, deus, não deixe que o mundo acabe agora, eu tinha um encontro com a vizinha gostosa logo depois de amanhã e minha mulher nem desconfiava. Quebra essa, deus. Amém.
   Marília, em seu ensolarado quarto, assiste tudo aquilo, da janela, com o cravo em mãos. A diversão já acabou, hora de colocar o mundo no lugar, ela diz.
   Então, ela levanta o cravo para o alto, como antes. Mexe pra cá e mexe pra lá. Não parece funcionar. E não funcionaria mesmo, afinal, no cravo era dia. E o dia está no cravo. Rapidamente, Marília concordou:
   Essa foi, de longe, a maior cagada que ela já fez.
   E ela sente fome. Ela ainda era humana, depois de tudo. Começa a preparar um pão com manteiga na chapa, cheia de culpa. Ela podia ouvir as manchetes. "Garota rouba o sol e faz pão na chapa"; "Mulher diz que fez o pão na chapa 'porque estava faminta'"; "Marília, o monstro que roubou o sol, será julgada hoje"; "Enforcamento, tiro, gás ou esquartejamento? Vote na pena mais indicada para Marília e ganhe um Ford, zerinho!"; "Traidora da humanidade é executada após 13 dias de torturas e sodomia panssexual"; "'Corpo da garota seria atirado contra o sol, se ele ainda existisse', diz especialista". Merda, ela tava fodida. Ela tinha que sumir com aquilo. Já. Antes que descobrissem que ela tinha o sol naquele cravo.
   Impaciente, anda de um lado pro outro, chacolhando a flor, praguejando.
   Era o fim dela. Não tinha jeito.
   Ela colocaria um fim à vida dela. Seria só mais um suicida pra aumentar ainda mais os recentes números.
   Precisaria, pelo menos, acabar com a flor. Então abocanhou o cravo, com vontade, ferindo seus lábios nos espinhos e mastigando, com violência.
   Sentiu vontade de chorar, sentia o sol escapando da flor, sentia seu coração batendo na nuca.

   Marília não sente mais nada.
   Caída em sua cama, encontrou uma escuridão ainda mais profunda e inevitável.
   O despertador toca. Ecoa.
   Marília acorda de sopetão, com o despertador gritando. Ofegante, viu ao redor seu apartamento, bagunçado e sujo, como antes. As janelas fechadas e o despertador ritmado. Ela sorri, desliga o alarme. Passando as mãos sobre os cabelos e levantando da cama, riu-se, aliviada. Num momento de reflexão e auto-crítica matinal, Marília diz pra si mesma frente à janela:
   -Sua filha da puta.

   Abrindo a janela, vê, novamente, a escuridão desesperadora do mundo. Olhando lá para baixo, apenas as poucas luzes artificiais de postes e carros batidos que iluminavam uma sociedade primitiva, em pânico. Marília, trêmula, olha para seu apartamento e vê, caído junto à cama, o cravo mordido, enegrecido, agora. Sente-se em colapso, sente a culpa e o remorso mais forte do que antes. Arregala os olhos e não tem tempo de sentir mais nada, sentindo-se desvanecer e ampliar-se, dolorosamente.
   Em seguida, a vida tinha retornado à normalidade. À mediocridade. As pessoas choravam apaixonadas, a merda continuaria. Todos continuariam levando suas existências detestáveis ao seus próprios limites, como sempre foi.
   Menos Marília.

   Marília virou o sol.

Nuevas!

Anthony Hopkins é eleito novo papa.



"Olá, Clarice."


   O conclave que durou apenas dois dias elegeu o ator Anthony Hopkins para ser o mensageiro de Deus na terra, de acordo com as tradições da Igreja Católica.


Anthony revelou que sempre ambicionou
o posto de líder da Igreja Católica.


   Nascido em 31 de dezembro de 1937, o ator natural do País de Gales tem uma extensa carreira, sendo premiado com o Oscar de melhor ator, por sua brilhante e sempre lembrada atuação como o psicopata canibal Hannibal Lecter em "Silêncio dos Inocentes" (1991).


O papa diz que é "humilde" e "trabalhador"


   Hopkins adotou o nome de Bento 16. "Apostei tudo que eu tinha num cavalo, semana passada, chamado Billie Jeans. Seu número era dezesseis. Graças ao bento animal, paguei minha fiança e posso estar aqui, hoje."


Sonho realizado.


   Apesar de ser o primeiro ator da história eleito à tal cargo, de tamanha importância, os fiéis festejaram ao ver o novo papa na basílica de São Pedro. O papa Bento "Hopkins" 16 não escondeu a alegria e disse: "Este será o maior papel da minha carreira".

20050403

Uma noite qualquer.

   O doutor Carlos acorda, no meio da noite, para tomar um copo d'água. Sua boca estava seca como nunca. E assim, desce as escadas, lentamente, meio sonolento, ajeitando o pijama listrado.
   Ele é casado há 5 meses, com uma bela mulher, Cláudia. Ele a ama, sem dúvidas. Descontroladamente. Ele então se recorda disso, nessa caminhada, quando passa em frente à um porta-retrato, com uma foto de sua lua-de-mel. Ele sorri, satisfeito. Eles tinham suas diferenças, sempre as tiveram. No entanto, agora, podia afirmar, com certeza, que eles ficariam juntos, para sempre.
   Chega à cozinha, e sem acender a luz, em meio à penumbra, arrisca-se a caminhar, como um notívago em treinamento. Um novato. Tateando os móveis e gabinetes, tropeçando bruscamente numa cadeira deixada em seu caminho, ele encontra a geladeira. Ao abrí-la, a gélida e amarelada luz toma conta do cômodo, iluminando-o, quase que totalmente. Pega uma garrafa na porta e bebe, afobadamente, deixando cair um pouco de água numa listra vermelha da camisa do pijama e mais um pouco no chão. Amanhã ele limpa isso. Ou sua esposa. Ele a ama tanto, ela deve fazer essas coisas pelo homem da vida dela. Coloca a garrafa de volta à porta, e antes de fechar a geladeira, dá uma última olhada no caminho de volta à saída da cozinha. E ainda assim, tropeça na mesma cadeira deixada no meio da cozinha.
   Ainda sonolento, faz uma parada no banheiro e sobe as escadas, preguiçosamente. Entra no quarto espreguiçando-se em direção à cama, onde senta-se. Olha o corpo da mulher iluminado pela luz do luar e fica satisfeitíssimo, com um misto de amor e desejo. Deita-se na cama e abraça-a por trás, passando uma perna por entre as pernas dela. Cheira seus cabelos e alisa seus seios.
   Beija-a atrás da orelha e suas mãos percorrem seu corpo, gélido e ainda sujo de sangue, exposto, maculando seus dedos, depravando seu espírito, gozando de uma paixão doentia e prazerosa. Cláudia, um corpo imóvel e apagado, é puxada pra junto de seu homem, que dorme em seguida, saciado, com uma mão em seu ventre e outra no profundo corte em seu peito, há muito coagulado.

20050328

Clara oo4

   -Beleza! A gente se vê então na Avenida dos Mafagafos, em frente ao cinema, lá pelas duas!
   -Tá legal.
   -Clara..
   -quê?
   -Toma cuidado.
   -..tá.
   Paulo desligou o telefone com um sorriso. As orelhas quase se juntavam atrás da cabeça de tanto que ele sorria. Ele assoviava uma canção. "There's no business like show business". Ele tinha um daqueles assovios bons de ouvir. Era um filho-da-puta, mas o desgraçado assoviava como um anjo. Junto ao assovio, ele dançava. Tentava fazer como nos antigos musicais, mas ele tem tanto gingado como um pato morto. Em um movimento inesperado, Paulo vai para o chão.
   -Que se dane, eu tenho um encontro com a Clara!
   Levantou-se num salto, abraçou seu labrador e rodopiando com o cão nos braços, ouvia uma valsa em seus ouvidos.
   Em seguida, correu para o banheiro. Tinha que estar impecável. Esse seria seu encontro mais importante. E também o mais desejado. Ele ama Clara desde seus onze, doze anos talvez. E desde então está sempre ao seu lado, sem saber como agir.
   Em poucos minutos estava pronto. Sim, estava impecável. Seus cabelos penteados, ainda úmidos, estrategicamente posicionados. A camisa passada e a calça, jeans, propositalmente amassada. Olha pela janela. Vai chover. Ele pega seu guarda-chuva - um daqueles belos guarda-chuvas grandes e que se parecem, vagamente com uma bengala, não aqueles retráteis, meio que embutidos, como pau de gato - e sai, de casa, esquecendo de alimentar o cão. Caminha rua acima. Roda o guarda-chuva cheio de uma alegria arrogante. Ele era dono do mundo, agora. Novamente assoviava, dessa vez era "Baby one more time". Dessa vez, sem dança, só o movimento contínuo do guarda-chuva xadrez.
   No ponto de ônibus, sua alegria parece irradiar às outras pessoas entediadas e conformadas. Todos os olhares se direcionam à ele e ele encara todos, um a um, com um sorriso besta, como se tivesse dado uma rasteira no Papa. Assim sendo, todos reagem como se ele fosse um completo idiota.
   Em alguns minutos, o ônibus chega e Paulo sobe, num salto. Ele provavelmente chegaria bem à tempo, em ponto. Com uma rigorosidade britânica, pensa enquanto passa pela catraca, sorrindo para o cobrador, recentemente desperto de um curto cochilo e com os cabelos despenteados.

ARQUIVOS      ...       Confere.

   É isso aí, marujos.

   Hoje tomei vergonha na cara e finalmente trouxe a grande maioria dos textos que estavam lá, juntando pó, no Blog-se (Lembrem-se, estamos no Blogspot agora!) e bem, não são todos porque uma coisa ou outra eu simplesmente achei que não envelheceu bem.

   Em compensação, o restante eu trouxe, sem cortes, com erros de digitação e um ou outro erro de português que existiam na época publicação.

   Divirtam-se.

20050212

O lançamento

   Elizabeth era uma mulher bem à frente de sua época.
   Ela não se sujeitava a nenhum homem. Tinha apenas um amor. Se dava ao luxo de escolher um homem e amá-lo, mesmo que secretamente. Seu nome era Charles.
   Mesmo solteira, Elizabeth mudou-se para um apartamento só seu em 1932, bem longe do chão. Era algo bastante incomum à época, porém era o que Elizabeth queria. E assim ela o fez.
   Ela já vivia lá há cerca de um ano quando se ouviu de uma nova atração. Algo revolucionário. Único. Todos na cidade estavam em polvorosa, afinal, era um espetáculo de um famoso e dito louco diretor.
   Os ingressos eram concorridos e Charles conseguiu um par de ingressos. Elizabeth ficou profundamente lisonjeada por ter sido "escolhida" por Charles para acompanhá-lo em tal evento. Porém, seu lado independente falou mais alto. E bem mais alto. Antes de Charles terminar suas palavras, "É a oitava maravilh--", recusou o convite e disse que se ela quisesse ir nesses eventos popularescos, ela iria por si só.
   Pela cabeça de Charles passou algo como "sutiãs queimados" e se despedindo, entrou no elevador.
   Todos disseram para Elizabeth sair naquela noite. Sem exceções. Amigas, conhecidos, sua família. Todos. Elizabeth enfezou-se e disse que não sairia. Ela era uma mulher muito teimosa.
   Por não ter nada melhor pra fazer, ela foi dormir mais cedo. Olhou para o relógio e pensou consigo "Nesse momento, deve estar começando o espetáculo e Charles deve estar com uma mulher qualquer, da vida". Entre seus pensamentos, Elizabeth adormeceu, rapidamente.
   Foi despertada minutos depois com um barulho que vinha da rua. Em seguida, uma mão gigante entrou pela sua janela e a agarrou, puxando-a rapidamente para fora, aos gritos.
   King Kong a olhou como se tentasse reconhecer a mulher por trás daqueles gritos desesperadamente assustados. Elizabeth se debatia na mão da criatura e por fim, King Kong viu que Elizabeth não era quem ele procurava.
   E então ele a soltou, lançando-a para a morte.

20050131

É hora.. É hora.. É hora-hora-hora!

No próximo dia 3 (três) é aniversário do pirata que aqui vos fala.

E para poupar cada um de vocês de quebrarem a cabeça, fiz uma pequena lista, em resposta ao grande sucesso de uma campanha semelhante de Natal na época do (falecido) KoRn Flakes.

Mas agora está ainda melhor!(!)

A lista contém produtos de todos os tipos, preços, marcas e variedades. Falando nos preços, tentei fazer algo fácil para todos os bolsos. Temos por exemplo um Balde de Champagne Preto 5,5 L ao risível preço de R$5,90 até um de meus sonhos de consumo, uma TV de LCD 42 Polegadas Dwide Ambilight PIP 42PF9996 Philips, por apenas R$27.000,00.

Temos também outros pequenos sonhos de consumo, mas a beleza da lista, definitivamente, são os livros, DVDs e CDs, que no fundo são o que realmente importa e onde vocês deveriam olhar com mais tenção.

Contudo, sem nunca esquecer da vedete de toda lista, uma bela Almofada Índio Branco com Bordado Preto, que dá todo um charme à todo o resto.

Concluindo, se eu fosse você, eu não deixaria de dar uma olhada e considerada em toda lista, mesmo que seja apenas como referência, porque muitos produtos não estão disponíveis. Sem contar na fantástica promoção.. enfim, corra já para (A LISTA)!


"Mal posso esperar para
ver a lista! Ui!"

20050106

A Carta

   Naquela manhã, ele encara o jornal, recém-comprado com cheirinho de gráfica ainda, ansioso, meio trêmulo. Um frio na barriga corta-lhe a mente.
   -Calma, Tomas - ele diz pra si mesmo - é só uma carta no jornal. Que foi publicada ou não.
   E se foi? E se lá estiver a carta dele? A opinião dele, exposta pra milhões de pessoas, quem sabe bilhões? Todos concordando plenamente com sua opinião e dizendo "puxa, esse cara é bom!". Mas e se não? Estaria Tomas condenado ao eterno ostracismo, a ser só mais um ninguém na multidão? Ou pior, a carta ter sido publicada, porém tão recortada e editada que suas palavras soem de maneira esdrúxula e deturpadas a ponto de não serem mais suas palavras, mas daquele editor nojento. No mínimo deve ser um estagiário, estágiário nojento, escroto de merda, logo vai dar pra notar que a presença dele naquela redação é totalmente dispensável e ele vai pro olho da rua, não antes de implorar por mais uma chance ao chefe, dar o cu pra ele e ainda ser demitido. Bem-feito. Na minha carta ninguém mexe.
    Tomas então, toma coragem e abre o jornal. Corre pra seção de cartas. Lá está ela, do jeito que ele a escreveu!
   

"Caros senhores,
venho por meio desta demonstrar
minha insatisfação perante estes
rapazotes que ocupam o tempo de
vocês reclamando sobre este ou
aquele assunto de não grande
relevância à sociedade em geral.

Grato,

Tomas Bernt."

   -Bom praquele estagiário. - diz, soltando uma densa fumaça de seu charuto.
   Em casa, Tomas gostava de fumar charutos de vez em quando, principalmente pela manhã. Na rua, só cigarros mesmo. Ele sempre soube que aquilo o mataria, cedo ou tarde. Mas ele queria sentir-se vivo. Fumou, bebeu e trepou. Ultimamente, mais fuma e bebe do que trepa. Isso é resultado da vulgaridade de sua vida sem significância. No fundo, Tomas sabe que é ordinário, como um figurante de um filme de ação. Enquanto os mocinhos vivem tendo ação, Tomas só está lá, ao fundo, não podendo olhar pra câmera, nem fazer nada fora do comum para não se sobressair demais, apenas lendo um jornal enquanto fuma um charuto mas ele prefere esquecer isso, prefere pensar que algum dia ele vai ser grande. Que ele vai ter o seu momento.
    Ele não sabe bem como isso vai acontecer, mas ele tem grandes talentos. Além de saber ler e escrever, ele sabe apreciar um bom charuto, por exemplo. Muitos dizem que Tomas é desajustado, meio retardado mesmo. Porém, tudo não passa de um pouco de psicose, disfunção de personalidade e mania de perseguição. E isso não o impedirá de, por exemplo, ser o maior Conhecedor e Apreciador de Charutos, que ainda sabe ler e escrever! Puxa, ele pode até ver as manchetes e reportagens, em revistas ao redor do mundo, em cada cidadela de merda. "Tomas Bernt Recomenda: Os Melhores Charutos da Estação - Matéria lida e escrita pelo próprio". Puxa, isso vai ser grande!

   Após cerca de uma semana a contar da data daquele jornal, hoje a edição mais importante de todos os jornais, pois continha seu nome, Tomas recebe uma carta, direto das mãos do carteiro com um cheirinho de perfume de mulher. Um frio na barriga se une ao pensamento do óbvio: É carta de mulher. Ou travesti. E se for de um travesti? Vai, algum travesti leu a sua carta e por alguma razão ficou interessado naquele garotão, bonitão, de opinião máscula e forte, escrita bonita e muito culta, de um humor sem igual, uma fina ironia jamais vista! E considerando os fatos, esse travesti deve ser o carteiro. Mas é lógico! O carteiro deve ter ficado esperando ali na vizinhança por Tomas sair no portão, para assim vir e entregar a carta em suas mãos. Agora provavelmente ele deve estar esperando em algum lugar escondido, observando Tomas cheirar aquela carta, provavelmente se masturbando e desejando aquela carne branca.
    -Que nojo.
   Mas e se for de uma mulher, uma mulher inteligente, culta, seios fartos e ninfomaníaca, um poço de sexo desesperada por aquele homem, porque ela ficou molhada apenas de ler sua carta enquanto participava de um ménage-à-trois naquela mesma manhã da publicação da carta. Entre um gozo e outro deve ter pegado papel e caneta, escrito a carta e a esfregado em suas genitálias, sedentas por Tomas. Mas o cheiro era de perfume e não de buceta. Tomas conclui que é melhor olhar o remetente.
   O nome era Mourato. Janete Mourato. Um bonito nome. Mas não parece o nome de uma ninfomaníaca. E que curioso, ela mora em São Paulo, tão próximo de sua cidade, São Caetano do Sul.
    De repente, ela é a mulher da sua vida. É, ela deve ser a mulher da sua vida! Ele lê a carta e sente uma vontade incontrolável de respondê-la. Só que ele no momento não tem papel, caneta ou sequer envelopes. Tranca sua casa e sai pela rua. Seus passos longos e rápidos, quase ritmados, lembram vagamente um trotar. Ele caminha por ruas abarrotadas de pessoas. E tem a clara certeza de estar sendo perseguido. Seu passo passa de ritmado para desesperado e ele sai caminhando apressado. A papelaria é coisa de oito quarteirões de sua casa, mas ele deveria ter pegado o carro. Pelo menos ninguém o perseguiria. Ninguém a pé. Só se viesse um carro. Um carro poderia persegui-lo, e ele teria de dirigir muito rápido, para assim despistá-lo. Assim como ele corre agora.
   Seus pensamentos correm mais rápido que seu corpo, no entanto, ele então chega à papelaria, entra, ofegante, e se mantém ao fundo da loja, misturado às pessoas, encarando a porta, esperando pelo perseguidor. Sua concentração é interrompida por um cutucão.
   -Em que posso ser útil?
   -..envelope. Papel. Caneta.
   -Pois não, senhor. O senhor parece que vai mandar uma carta. Quer selos?
    -Sim.. ã, por favor. - diz Tomas puxando o maço de cigarros do bolso direito de seu paletó. Segurando um cigarro nos lábios, leva o isqueiro à altura do rosto e antes que tenha chance de acendê-lo, é interrompido por outro cutucão, mais uma vez.
    -Senhor, é proibido fumar aqui.
   -Ah, desculpe, diz Tomas em um tom arrependido, guardando o isqueiro e amassando o cigarro com a mão esquerda. Estou tentando me livrar do vício.

   Até parece, pensa consigo, satisfeito.

20041229

Crise da meia-idade.

   João da Silva está entediado.
   Recentemente ele se perguntou o que tinha feito de bom para si mesmo e ao mundo. Algo de emocionante e inesquecível. E concluiu que tudo passou sem ele nem se dar ao trabalho de olhar para o lado. E quando o fez, era tudo chato. Ele, sua vida, seu cabelo e até seus sapatos eram chatos. Um tédio.
   João está entediado.
   Seus olhos vazios procuram uma resposta. Uma saída. Ele se distrai com a música que está tocando em seu rádio, naquele momento. "Smoke get in your eyes" toca gentilmente. João da Silva sorri. Aquela música é muito especial para ele. Foi ao som dela que João da Silva tinha feito seu primeiro trabalho. Mas isso aconteceu há uns trinta anos atrás, quando ele era apenas um rapaz de vinte e um anos, cheio de sonhos e planos. Nesse momento ele não se lembra bem os motivos que o levaram a seguir aquela carreira. Mas desde então, ele não podia parar. E não queria fazê-lo. Até aquele momento. Afinal, aquela profissão é certa? Ele pode trocar para algo mais suburbano, algo de trabalho fixo durante o dia, jantar em família à noite. Contudo, quem vai empregá-lo com aquela idade? E o que ele sabe fazer além daquilo? Foi aquilo que ele sempre fez e só aquilo que ele sabe fazer. Profissionalmente, é claro.
   Ele dá uma coçada no olho direito. Boceja. Desliga o rádio no meio de uma música qualquer, só esticando o braço, sem sair de posição, momento algum.
   João, então, se lembra que precisa comprar umas coisas no mercado, depois. Vamos lá, é a comida do cachorro, uns sucrilhos e ovos. Não pode esquecer-se de arroz integral, iogurte e umas frutas. O médico o mandou diminuir o açúcar, cortar o álcool e comer mais frutas, vegetais e um monte de lixo natureba. Só de pensar, ele quer morrer. Mas que se foda, também vai comprar uma caixa de chocolates, duas garrafas de vodca para seu velho amigo, o Bloody Mary, cerveja e obviamente um pacote de jujubas. Desde moleque, esse é seu vício. Digo, sentar em frente ao aparelho de televisão e assistir a um bom filme. Ele, particularmente, gosta muito de comédias românticas e dramas. Dá uma coçada na bunda. Dramas do Leste Europeu, sabe? Ou mesmo o cinema francês, todo cheio de poesia e beleza. Ou aqueles filmes japoneses, cheios de lições de moral, de vida e de história sem ação. Não que ele não gostasse de cinema norte-americano. Karatê Kid é um clássico e os Goonies são realmente bons, apesar do Sloth ser meio molenga. Mas no geral, os filmes americanos são meio tediosos, como por exemplo, aquele filme do.
   João da Silva é interrompido. Por um pombo idiota que entrou pela janela e cagou em seu braço. Filho da puta. Depois João cuida desse bicho nojento.
   Ele acende um cigarro e se lembra que tem de ligar para a mãe. Aquela senhora já tem seus setenta e três anos e continua ativa pra diabo. E ele faz o possível para falar com ela, no mínimo, duas vezes por semana e, agora, já é sexta-feira e ele não ligou pra ela nenhuma vez ainda. Se ela o visse ali, naquele momento, no penúltimo andar de um prédio abandonado, junto à janela, diria que ele precisa se casar pra aprender a viver como um homem. Mas ele já pensou nisso e já quase engrenou num casamento, mas é duro para as mulheres lidarem com sua profissão. Por mais que elas tentem. E isso o faz sentir mais arrependimento. E vergonha por ser que é e fazer o que faz. Seria incrível ter família. Filhos. E provavelmente, ele já teria netos. Mas não. Ele é um velho careca e beberrão, fazendo uma dieta idiota, furando a dieta de vez em quando e vendo filmes a maior parte do tempo. Mas que droga de vida é a vida de João da Silva. Ele boceja outra vez, só em pensar nisso. E na sua vidinha de merda tediosa e chata. Em que ele se engana sempre e tem momentos de felicidade de vez em.
   Ele é interrompido mais uma vez.
   Dessa vez, pelo alarme do seu relógio de pulso. Já é hora dele trabalhar. Pra valer. Ele toma seu instrumento de trabalho em mãos e então se mantém fixo, como o artista tentando captar o momento exato da inspiração, olhando lá pra baixo, pra rua, onde começa a passar um grupo de pessoas. Fanfarra. Polícia. E lá está o carro do presidente. O recém-eleito presidente.
   João da Silva nem faz muito esforço. O carro é aberto, um conversível e tanto, ele diria. Foi olhar e atirar. Nesse caso, três vezes. Acertou-o na cabeça e no peito. O terceiro tiro acertou em cheio o banco do carro. Matou aquele pedaço de couro estofado. Hora do óbito: nove horas e quarenta e um minutos.
   As pessoas ficam em pânico. A polícia em rebuliço. O presidente está morto.
   João da Silva se mantém, olhando a movimentação. Dois de três tiros. Não seria nada mal para qualquer um outro, mas pra ele é como se um padre tivesse errado o Pai-Nosso.
   Eu devo estar ficando velho, pensa consigo.
   João sai da janela e guarda o rifle. Ajeita a gravata e desce calmamente a construção. Lá embaixo, pára perante a multidão que se atropela, fitando-a, orgulhoso. Dá um tapa na testa.
   O suco de tomate! Ele não pode se esquecer de comprar o maldito suco de tomate. Onde já se viu um Bloody Mary sem suco de tomate?
   É, ele está ficando velho mesmo.

20041225

Natal. Netel. Nitil. Notol. Nutul. Nãotãol.

Pode me chamar de tosco, mas você não perde por esperar pela Páscoa!

É isso aí, criançada. Tá acabando o Natal.
Em dois minutos é dia 26 e todas as pessoas vão voltar a ter aquela cara feia de sempre com o mau-humor exalando de seus poros suados, se mal-dizendo por suas existências insignificantes.
Por isso vamos aproveitar esses dois minutos que nos restam.

Afinal, Natal é só uma vez por ano.




Feliz Crimble!